Interpretações Somos regidos pelas fases. Sabemos que temos altos e baixos, só não aceitamos. Quando bate a tristeza, é como se tudo o que de bom viemos nada tenha valido, nada tenha significado. É como se tudo não tenha sido verdadeiro. As fases nos ajudam a entender, nos ajudam a sentir, a chorar e a sorrir. Somos fases desde que acordamos até o momento em que vamos dormir. Interpretamos mais do que vivemos. Mentimos para nós mesmos querendo agradar outrem. Sabemos que não vale a pena, mas continuamos a fazer. Dizemos, por vezes: “que passe logo esta fase”. Ela passa sim, todos os dias. As fases passam de um jato, mas de um jato também, criamos outras. Queremos coisas diferentes e não ouvimos nosso próprio eu, nosso próprio ser que clama, que chora e que pede para sermos verdadeiros. Não podemos nos abater com fases. Precisamos querer mais que o pragmatismo. Fugir do senso comum deveria ser uma de nossas tarefas. Toda busca precisa sair de nós, não se pode buscar o que não se quer para agradar quem está ao nosso lado, ou quem imaginamos que esteja. Façamos cada um uma parte pequena, mas uma parte significativa, que é sermos verdadeiros, que é sermos nós mesmos, sem interpretações. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 09h57
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Dia vencido A rua cessou. O frio desceu. Saudades contidas. Vontade de voar para longe. Amor incondicional que me habita. Quero te ver. Sinto teu abraço. É como se estivesse aqui comigo. Repriso o que passou. Nada basta, nada chega, tudo é saudade. Você é presença viva. Você é o amor que pulsa. Não sei como, nem por que, mas é. Venci mais um dia. Vence-me a saudade. Não supero meus demônios. Preciso te encontrar. Quero te tomar nos braços. Quero te amar como um louco. Quero também simplesmente te olhar. Ver-te parada na porta e eu com cara de idiota. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 18h12
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Dilacerante e verdadeira Não consigo eleger uma música como nosso tema. Você é a tradução das mais lindas canções. Componho-te mil letras e capto a melodia de ti. Sinto a energia que emana deste coração que pulsa, que salta e que me ama. Em cada poema que escrevo, um pedaço de mim te dou. Em cada sentimento revivido, sinto-te mais minha, mais linda, mais mulher. Escolho-te em meio à multidão, agarro-te como uma joia preciosa e te guardo em um lugar seguro, mas à mostra, pois você precisa ser vista. Quando nos tocamos, as cores se tornam mais nítidas. O mundo é uma palheta com mil combinações. Criamos um novo arco-íris com mais de sete cores. Somos a soma do belo e o reflexo desta paixão dilacerante, acesa e muito, mas muito brilhante. Derramo em ti todo meu amor. Capto de ti tua paixão molhada, escorregadia, mas acima de tudo, uma paixão inexplicável e verdadeira. Uma paixão regada ao amor. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 13h25
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As coisas clamam por você Já preparei a casa. Fui ao mercado e à feira. Passei numa casa de vinhos também. Tudo está arrumado, tudo te espera. Está frio, do jeito que gosto. Aguardo-te ansioso. Mal posso esperar para te ver descendo as escadas. Quero te abraçar, te sentir. Preciso deste sorriso que me encanta. Espero por esta volta inusitada. Que enterremos nossos demônios. Matemos nossos pudores. Seremos um em nossa multiplicidade. Arrumaremos um tempo para os outros, só depois... Que pouse logo teu avião. Que ande logo este trânsito. Tudo está pronto em minha casa. As coisas, até elas clamam por você. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 19h32
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Degluto-te Perdi o rumo de casa, esqueci meus limites. Comecei do zero e me excedi. Lambuzei-me, droguei-me, viciei-me neste amor, nesta vontade louca de entrar em ti e ficar. Devoro-te como uma fruta fresca, degluto-te como se saboreasse o que há de mais doce, o que há de mais delicioso que a vida possa oferecer. Dou-me de bandeja a você. Posso ser teu banquete, desde que seja o meu. Serei a vida solta que corre em tuas veias. Serei teus fluídos que fluem depois do amor, depois do gozo que regozija de vida. Embalo-me nestes seios que me acolhem. Dorme em meu peito arfante. Somos consumidos pelo fogo que arde em nós. Renascemos outros, mas não menos vorazes e carentes. Renascemos para nos consumir e nos terminarmos em sexo, em amor, em paz, na paz que só os céus podem oferecer. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 18h33
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Noite suja Estava completamente enlouquecido. Secou uma garrafa de vinho barato e decidiu sair sem rumo. O apartamento estava uma verdadeira zona. Fedia à urina e mofo. Estava solto no mundo e queria morrer. Decidiu que seria sua última noite. Não sabia como daria cabo de tudo aquilo, mas encontraria um jeito. Trambalhando, passa em outro boteco tão sujo quanto sua casa e compra outra garrafa de vinho. É de uma marca diferente da que estava tomando, mas tão porcaria quanto aquela. Sai. A gorda, dona do boteco faz um gesto negativo com a cabeça. Ele volta. Pede um maço de cigarros, do pior que encontra. Ela estende-lhe. Ele passa uma nota amassada e fedida. Novos movimentos de negativa e ele ganha a rua. Está tudo escuro e chove fininho. Caminha a passos trôpegos, bebe e fuma. Esqueceu-se de comprar fósforos e precisa acender um na bituca do outro. A garganta arranha pela fumaça ardida e ele amaina com goles e mais goles de vinho, daquele vinho de merda, mas que na medida em que toma, vai se tornando um verdadeiro néctar. Está em um beco. Nem percebeu como chegou ali. Tudo fede ao seu redor. Talvez o fedor venha dele mesmo. Outros bêbados pelos cantos. Uma placa de neon vermelha pisca como uma buceta, ele imagina. Quer entrar. Está sem dinheiro. Dará um jeito. Precisa entrar. Precisa encontrar o inferno. O vinho horrível acabou. Ele chega até a portaria. Nem precisa dizer nada. Dois brutamontes negros o jogam na calçada. A garoa virou chuva. Ele se levanta. Sangra na boca e nos cotovelos. Vê faróis se aproximando em alta velocidade. “É agora. Este é o fim”, pensa. Ainda não. Ouve chiar de pneus. Vê alguém descer do carro. É uma mulher estranha. Vestida de negro. Roupas de couro. Parece personagem de cinema. Ela sorri um sorriso que ele julga maligno. Estende-lhe a mão. Ele entrega-lhe a sua. Ela é forte como um estivador. Levanta-o. Puxa-o para o carro. Ela não está sozinha. Há outra do mesmo estilo que ela e tão parecida com ela no carro. “Irmãs?”, ele pergunta. “Mãe”, a outra responde. Ela arranca com o carro. A outra sorri. Nota-se que beberam também. Não se sabe se algo tão merda e barato quanto ele, mas elas beberam. Ele sabe. As luzes da cidade o cegam. O carro aumenta a velocidade. Novamente a escuridão de uma estrada vicinal. Estão em um local ermo. Floresta por todos os lados. Entram por uma estradinha de terra. A mãe pega em seu pau. Ele se excita. Não sabe como, mas fica muito excitado. Ela que estava sem sinto, vira-se para trás e começa a chupar seu pau muito duro. A filha dirige e ri. Ela tem um riso estridente, um riso que mesmo bêbado e chapado, ele não considera um riso humano. Estão em uma estradinha de terra. Há pastagem dos dois lados. Passaram há pouco por uma cerca destruída. A filha para bruscamente em frente a uma casa de madeira com ar sinistro e amedrontador. O ambiente lhe passa um ar de filme de terror. A mãe continua a chupar-lhe o pau. Ele não goza, mas se excita cada vez mais. A filha desce, a mãe desce e ele as acompanha. Sobem as escadas e estão em uma sala. Tudo é grande e escuro ali. Tudo parece de outro mundo. As duas tiram a roupa rapidamente. São muito parecidas mesmo. A mãe chupa a buceta da filha. Ele fica louco. A filha chupa-lhe o pau. As duas ficam de quatro e ele as come. Ora uma, ora outra. A mãe vem por cima e cavalga seu corpo. Ela grita. A filha geme com a língua dele na buceta. As duas gritam muito mais. Um trovão ecoa pala noite. A chuva virou tempestade. Ele vai gozar. Já não sabe mais em quem. Tudo é escuro. Só sabe que tem uma buceta em seu pau e outra em sua boca. Ele vai gozar, ele vai explodir. Um raio corta o céu e ilumina parcialmente o ambiente. Elas estão com cara de más. As duas se beijam, se mordem. Há sangue em suas bocas. Ele não sabe sangue de quem, ele não sente dor. Ele só sente o tesão que parece lhe arrancar o chão, o mundo, a vida. Ele vai gozar, ele goza. Não sabe se na mãe ou na filha, ele goza, ele explode junto com o trovão que parece rachar o planeta ao meio. Vê a escuridão, sente a escuridão e os dois corpos se desvencilharem dele. Nada mais. Brumas, sonhos, levitação. Tudo em um só momento e ele mergulha em algo inimaginado, algo que tanto pode ser sonho, como pode ser um sono profundo, como também a tão sonhada e esperada morte. Tudo vira nada. *** Sente uma cócega em seus pés. Algo lhe lambe a cara. Tenta se mexer, nada. Está paralisado, está em meio ao limo, a algo viscoso. Tenta abrir os olhos de novo, sente dor. Com muito custo, vencendo a claridade que lhe chega como um estupro, ele vê o céu que está claro. Tudo lhe vem à memória, absolutamente tudo. O vinho barato, mais vinho barato, cigarros, expulsão da espelunca, chuva, carro parando, mãe e filha no mesmo carro, sexo com as duas, raios, apagão e mergulho no inconsciente. Esforça-se muito e abre mais um pouco o olho esquerdo. O direito parece ter algo sobre ele. Tenta mexer as mãos e as pernas. Não consegue. Sente as lambidas de novo. Concentra todas as forças no olho e o abre. O que vê é muito estranho. Está em uma vala que a enxurrada cobriu de barro. Ao redor é pasto. Duas vacas são as responsáveis pelas lambidas em seu corpo. O gado parece manso. Ele se esforça. Mexe, primeiro uma das mãos. Depois repete o feito na outra. As vacas continuam ali. Ele leva a mão direita sobre o olho ainda coberto. Retira uma pelota de barro de cima. As coisas começam a se descortinar. Uma nuvem tapa o sol. Ele aproveita a diminuição da claridade e olha pra cima. Vem mais chuva e ele sabe. Precisa sair dali. Esforça-se mais e mais. Não tem ossos quebrados, ele sabe. Embora tudo lhe doa, tudo pareça estar em carne viva. Ele fica em pé e as vacas saem. Um trovão e a chuva repentina. Ele caminha a esmo pelo pasto. Encontra uma estradinha, mas não é a mesma estradinha da noite passada ou sabe-se lá de qual noite. Ou será que é? Ele está confuso. A chuva cai como uma rajada. Ele corre. Está descalço e nu. Ele só se dá conta depois que sai da vala. Corre. Avista um saleiro no pasto e tenta se abrigar lá. As rajadas de chuva limparam-lhe o barro do corpo e ele sente-se mais livre. Chega até o cocho. Avista no telhado um saco de ráfia. Ainda há um resto de sal nele. Ele despeja no cocho e, aproveitando a chuva, lava o saco. Faz dele uma saia e corre em meio à chuva. Ganha a estradinha e não olha para trás. Não contou o tempo, mas depois de muito caminhar em meio à chuva, chega até a estrada. Ele reconhece a estrada. Dois caminhões carregados com madeira passam por ele. Ele faz sinal, mas eles não param. Com a chuva, é muito provável que os motoristas não o tenham visto. Ele continua a andar e tudo dói. A dor maior vem de dentro, do pulmão, do coração. Pode ser pneumonia. Ele desiste da morte. Sente que morrer dói demais. Tenta correr e cai. A chuva continua. Não perdeu os sentidos. Ouve ao longe uma sirene. Pensa ser delírios. Não é. Uma ambulância para ao lado dele. Vê outro carro e reconhece uma viatura policial. “Ele parece estar inconsciente”, diz uma voz feminina. A dona da voz ele vê em seguida. É uma mulher alta e forte vestida de branco. Um rapaz de óculos também vestido de branco o examina. A mulher fala com alguém de fora da ambulância. “Este vai se salvar. Conseguimos chegar a tempo”. O homem de óculos continua a examinar-lhe. Cobrem-no com algo barulhento, mas que lhe transmite um calor gostoso. A ambulância já está em movimento. Pela janelinha ele consegue ver a viatura da polícia que segue atrás com suas luzes acesas. A chuva persiste. Levam-no a um hospital desconhecido. Na verdade, ele não conhece nenhum hospital. Examinam-lhe com minúcias. Duas mulheres e um homem lhe dão um banho. Eles riem e falam coisas aleatórias enquanto lhe banham. Ele está consciente, mas faz de tudo para permanecer calado. Levam-no para cama. Outro médico lhe examina. Escreve algo em uma prancheta e se retira. Uma enfermeira negra e sorridente chega depois. Aplica-lhe injeções. Aplica-lhe um soro e ele fica quieto e dorme. Durante o sono tem pesadelos. Acorda e não lembra o que sonhou. Um homem com um colete preto está sentado em uma cadeira ao lado da cama. Identifica-se como investigador de polícia e pergunta se ele pode falar. Faz que sim com a cabeça. E pela primeira vez depois dos acontecidos e ele fala. Sente alívio ao falar. Conta tudo. O homem grava a conversa em um equipamento minúsculo e faz anotações em um caderninho de capa azul. Dá por terminado seu relato e o investigador conta-lhe que cinco outras pessoas sumiram de forma misteriosa e foram encontradas mortas depois com muitos sinais de violência, inclusive de violência sexual. Os desaparecidos eram homens que andavam pela noite. Todos solitários, segundo o investigador. Todos com problemas existenciais. “Tua sorte foi termos lhe encontrado a tempo. Senão, quem teria te matado era uma pneumonia. Um motorista de caminhão nos avisou. Disse que lhe avistou sob a chuva e quase sem roupa. Não temos suspeitos. Você é o primeiro a nos falar dessas mulheres. Por ora é isso, se precisarmos de mais depoimentos, convocaremos. Cuide-se. Você nasceu de novo”. Antes de o homem partir ele perguntou que dia era. O homem disse. Calculou e constatou que ficou desaparecido três dias. Ele podia ter morrido. Ninguém sabia nada das duas mulheres, da mãe e da filha sedutoras. Duas noites no hospital e foi liberado. Nada de vontade de fumar nem de beber. Vontade sim de mudar de apartamento, de recomeçar tudo, de fazer tudo diferente e foi o que fez. Encontrou trabalho como zelador e jardineiro de uma escola. Alugou uma casinha nos fundos da casa de uma mulher aposentada e tocou a vida. Por muitas vezes as lembranças daquela noite suja lhe perseguiu. No entanto, vendo as crianças correndo pelo pátio da escola ele se alegrava e voltava a pensar em coisas boas, em coisas simples, como a grama que precisa ser aparada, como as flores que precisvam ser regadas. Nunca mais foi procurado pela polícia. Nunca mais viu a mãe e a filha que literalmente lhe jogaram na lama naquela noite suja. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 17h14
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Idiotice Virei especialista em saudade. Entendo tudo deste sentimento. Vivo de imaginar felicidade. Sinto que me corroo por dentro. Palavras já não adiantam. De falar, já desisti. Em mim, todos os segredos cantam. Comigo, guardo tudo de ti. Vive sei lá como. Vivo e sei muito bem como estou. Sei também que de amor sempre me tomo. Também sei que não importa o que passou. Continua nesta zona de conforto. Aproveita tua vida desgraçada. Talvez amanhã estejamos mortos. Ou até mesmo trôpegos pelas calçadas. Vai e se destrói. Resite ao amor e à paixão. Sei que também se corrói. Acredito que odeia a solidão. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 14h14
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Medo de espelho Ontem ela era uma menina. Hoje, apenas uma velha. O tempo lhe passou de um jato. O tempo a crucificou. Nada lhe fará voltar no tempo, só as lembranças. Ele envelheceu não só no corpo, mas na alma também. Ela se amedrontou e não viveu seu amor. Pensou em segurança e não se soltou. Hoje ela é uma velha que se lamenta. O tempo passou para ela como passa para todos. Sabe que errou e não admite. Nem mil plásticas farão o tempo lhe voltar e sorrir. Nem milhões de acalentos a farão se sentira amada, doce. A felicidade que temos é a que buscamos. Viver do que poderia ter sido é um caos. Os fortes amam sem medo e se entregam. Os fracos e covardes envelhecem mesmo antes do tempo. Quem não se arrisca na vida tem medo do espelho. Tem medo do tempo e vergonha de si mesmo. Ter vergonha de si mesmo e de suas covardias é o mesmo que morrer. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 16h54
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Olhar de peixe morto O velhinho me vende peixes e me chama de doutor. Repito mil vezes que não sou doutor de porra nenhuma, não adianta. Ele continua a me chamar assim. O velhinho é meu amigo. Ele vende peixes e conta histórias. Sabe muitas, sabe cada vez mais. Ele vai para casa todas as noites fedendo a peixe. Volto para minha casa todos os dias sem cheiro algum, sem lembrança alguma, exceto a tua... O velhinho que vende peixe faz isso por paixão. Talvez tenha sido sua paixão mais sensata, vender peixes. Quanto a mim, minhas paixões não têm cheiro de peixe, no entanto, têm dentes de tubarão e me devoram. Sou dilacerado por meu desejo contido. Durmo sem feder a peixe, mas com sonhos e pesadelos estarrecedores. Sou um nada, eu sei. Como os peixes assados, fritos, cozidos e me embriago. Sinto as paixões que me corroem, sinto um amor que não me alegra. Amanhã o velhinho estará lá. Venderá seus peixes e me chamará de doutor. Comprarei alguma coisa, preciso me manter vivo, preciso seguir; não sei para onde, mas preciso. Talvez meu olhar seja um olhar de peixe morto, talvez eu tenha de parar de comer peixe, ninguém devora seus iguais, esta é a regra. Talvez eu seja mesmo um doutor, graduando neste fogo da paixão. Talvez eu precise deste olhar de peixe morto para me sentir um pouco humano e não um ninguém que tua ausência me faz sentir. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 17h32
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Sonhos dos outros Quem vive sonhos alheios, simplesmente vegeta. A vida é um raio. Passa e nada deixa. O que fica da vida são os feitos, são os amores vividos e a felicidade. O que deixamos são os nossos sonhos, as nossas verdade e até nossos medos. O que vivemos dos outros, fica com os outros... Por vezes achamos que estamos fazendo o correto. Aos olhos dos outros, estamos mesmo. Só que em nosso íntimo, sabemos que estamos errados. Sabemos que tudo o que mais queríamos era sermos nós mesmos, era viver intensamente a nosso modo, do nosso jeito... Viver sonho alheio é perigoso. Correr ao encontro do que você não buscou é suicido. Deixar de sorrir, de amar, de ser feliz mesmo que um dia, apenas porque os outros não querem, é furada. Os outros são apenas os outros. Você é a soma dos teus sonhos e da tua felicidade. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 12h19
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Quieto Hoje eu preciso ficar quieto. Hoje eu preciso de paz. Deixe-me aqui comigo mesmo, mesmo que seja só por hoje. Quem sabe eu renasça de mim. Talvez as coisas se encaixem. Pode ser que a vida resolva me sorrir, mesmo que seja só por hoje, só por um instante. Saio desta madorra quando der. Não quero mais pressa, não quero prazo. Preciso simplesmente ficar aqui, quieto, muito quieto até que tudo passe. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 09h32
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Estranho assalto Era a terceira vez que João Alberto entrava naquela agência bancária em menos de quarenta dias. Formado há três anos, havia aderido a um financiamento educativo com carência de sei meses, mas não estava conseguindo honrar com os compromissos. Em princípio, os juros eram relativamente baixos, mas depois, com os atrasos nas prestações, João Alberto não conseguia de maneira alguma pagar o que devia, ainda mais agora que estava desempregado pela quinta vez em três anos. Seu último trabalho fora como vendedor em uma loja de tintas, trabalho muito diferente da profissão para a qual João Alberto se formara: administrador. Foi dispensado depois que se perdeu em uns códigos e fez uma tinta errada para um cliente chato. Como fazia pouco tempo que estava no emprego, o acerto de contas mal deu para pagar o que devia no mercadinho e o aluguem atrasado na quitinete que habitava nos fundos da casa de um casal de idosos. Para sobreviver, o rapaz de menos de trinta anos fazia bicos na entrega de jornais, panfletos carga e descarga de caminhões e cortes de grama (quando aparecia um cliente que possuía uma máquina de cortar grama, obviamente, pois ele não tinha condições de comprar tal ferramenta). O gerente do banco, um homem com cara-de-cadela e considerado com grande propensão a corno por João Alberto, passou a incomodá-lo quase todos os dias, cobrando-lhe uma posição. Nas outras vezes em que o ex-estudante esteve na agência, teve de se conter e contar muitas vezes até dez para não sentar a mão na cara do gerente com cara de corno. O gerente se chamava Roberto e parecia ter ódio do mundo. Tentava manter um sorriso com cara-de-cadela, mas no fundo, todos sabiam que ele sentia prazer em ferrar com todos, principalmente com devedores como João Alberto e com funcionários e estagiários. Ele era o gerente-geral. Quando o rapaz chegou à agência, já passavam das duas da tarde. Logo o banco fecharia. Ficou aguardando enquanto o gerente conversava com uma mulher. Não demorou muito para descobrir que aquela era a esposa do gerente. Muito bonita a moça, mas tinha a aparência cansada, de quem não aguentava mais estar casada com um idiota como aquele. João Alberto viu que ela chorava quando saiu. O gerente parecia espumar de raiva e olhou com ódio para João Alberto. “Se este cara não for corno, eu me enforco”, pensou o rapaz tentando amenizar a situação. Ele falaria com o gerente em minutos e precisava ter paciência para não perder a razão, já que dinheiro para pagar a dívida era algo impossível em sua vida, naquele momento e pelo visto em muitos outros momentos seguintes. *** Thiago começou a fazer faculdade de administração junto com João Alberto, mas parou antes de terminar o segundo semestre. Trabalhava em uma empresa do governo, ganhava uma miséria e disse que aquilo não era para ele: “Eu não tenho saco para isso. Quero mais da vida, mereço mais. Não vou aprender a administrar coisas dos outros, passar dez, doze horas atrás de uma mesa e ganhar uma mixaria. Eu quero é uma moto; quero estrada, quero praia e aventura”, disse Thiago a João Alberto na noite em que desistiu dos estudos. O rapaz ainda emendou: “Tenho pena de você, João. Eu não faria dívida como você fez para pagar um curso de merda desse. Vou largar meu emprego do governo. Eu não vou ficar dentro de uma rede de esgoto o dia todo. Não sou rato para viver no esgoto, nem verme para viver na merda. Vou procurar meu rumo”, disse e foi o que fez. Thiago era funcionário da empresa de saneamento. O tempo passou e João Alberto nunca mais soube de Thiago, exceto que ele tinha mesmo abandonado o emprego, que tinha comprado uma moto nova com o dinheiro do acerto de contas e que tinha ido embora. A família de Thiago morava em outra cidade e João Alberto achou que no mínimo ele estivesse morando com eles. *** O gerente chamou João Alberto. Sobre a mesa um calhamaço de papéis. “Já ajuizamos um processo. Caso não pague até o final da semana, a cobrança será judicial”, foi logo avisando o gerente cara-de-cadela. João Alberto tentou sorrir um sorriso que ele não sabia se de deboche ou de desespero e o gerente continuou: “Vocês acham que fazer faculdade é fácil? Entram em faculdade particular porque não podem passar em um vestibular para faculdade pública, aí se enchem de dívidas e ficam na boa. Eu detesto estudantes miseráveis”, disse. João Alberto fez menção de esmurrar, primeiro a mesa, depois a cara do gerente, mas ouviu gritos vindos da porta. Reconheceu de imediato de quem eram os gritos, mas jamais poderia imaginar do que se tratava.
Escrito por Jossan Karsten às 16h05
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Continua... *** “Todos no chão. Quero só a grana”. Três homens encapuzados e com armas pesadas pareciam ter surgido do nada no banco. Em princípio, gritos de mulheres, mas depois o silêncio. O gerente que atendia João Alberto ficou branco. A voz de comando era de Thiago, seu ex-colega de faculdade, João Alberto constatou de imediato, embora os três homens estivessem com os rostos cobertos. “Você é o gerente, seu corno. Então abra a merda do cofre que queremos a grana. Não pense em apertar o alarme que muita gente vai morrer e você vai ser o primeiro, filho da puta”. Encarando João Alberto, o encapuzado falou baixinho: “Eu disse que estudar essa merda de curso não te levaria a lugar algum”. Alterando a voz, o bandido surpreendeu João Alberto. Apertou-lhe o braço com uma força brutal e disse: “O corno abre o cofre e você pega o dinheiro para nós”. João Alberto tremeu e, seguro pelo braço, acompanhou o gerente que seguia lentamente pelo corredor do banco onde todas as pessoas estavam deitadas no chão e não se ouvia um sussurro sequer além da voz de comando do encapuzado. Sob o cano de uma metralhadora israelense, o gerente abriu o cofre. Um dos bandidos entregou três sacos que João Alberto foi enchendo sem pestanejar com as milhares de notas que havia no cofre. Sacos cheio e a voz de comando novamente. “Você fica no cofre e você vem conosco”, falou o encapuzado dirigindo-se a João Alberto. O gerente mijou nas calças e, em um ato idiota, apertou um botão vermelho localizado ao lado da porta do cofre gigante. O alarme foi acionado. Com uma rajada que mais parecia uma britadeira, a cabeça do gerente foi esfacelada. O autor dos disparos era o encapuzado que havia entregado os sacos a João Alberto. Carregando um dos sacos, sob a mira da arma poderosa, João saiu da agência. A mulher do gerente estava ao lado da porta presa e amordaçada junto com dos dois seguranças, também presos e amordaçados. A mulher do gerente foi conduzida para fora pelas mãos do encapuzado que dava ordens. Os dois seguranças seguiram rapidamente sem nenhum contratempo. Todos entraram em uma Kombi branca estacionada, com o motor ligado e com a porta traseira aberta. O veículo saiu em disparada no mesmo instante em que um ruído ensurdecedor de sirenes da polícia ecoava pela cidade. A Kombi rodou por alguns quarteirões e todos desceram. Deixaram as armas lá dentro. As mordaças e as algemas de plásticos foram retiradas de todos. O seguranças respiraram aliviados e a mulher do gerente deu um beijo no encapuzado. “Eu pensei que fosse dar errado. Espero que ele tenha morrido”, disse a mulher. “Não sobrou nada dele”, falou o atirador e João Alberto reconhecer de imediato sua voz. Todos entraram em uma van escolar de turismo. O motorista da Kombi assumiu a direção e, lentamente dirigiu rumo a uma estrada vicinal. Tão logo saíram da cidade, todos os três tiraram os capuzes. Os três eram Thiago, Daniel e Pedro, todos, ex-colegas de João Alberto e que tinham desistido do curso de administração. Pedro foi o autor da saraivada que matou o gerente e que João o havia reconhecido pela voz. “A Argentina nos espera e você é nosso convidado!”, disse Thiago a João Alberto. Sem pestanejar, João sorriu e disse em tom jovial: “Estou dentro”. A tarde virava noite quando a van atravessou sem problemas a ponte que liga o Brasil e a Argentina. Rodaram mais um pouco e o estacionaram em uma estrada de terra em meio a uma plantação de trigo sob uma árvore frondosa. A noite ficou iluminada pelas labaredas do carro. Um dos guardas foi quem meteu fogo no veículo. Fizeram a divisão do dinheiro ali mesmo na estrada. A João Alberto coube mais de um milhão de reais. Dinheiro que ele jamais sonhara em receber em toda sua vida. Segundo Thiago, as notas não eram marcadas, pois se tratava de dinheiro da movimentação diária, uma vez que o banco recebia dinheiro de outras agências e de outras instituições financeiras também, além dos depósitos das empresas e dos clientes. “Agora é cada um para um canto e que a vida cuide de todos. Vou dar um pulo em Bariloche. O frio de lá é maravilhoso. Vamos namorar muito”, disse olhando para mulher do gerente que sorria como um anjo. Todos riram. João Alberto pegou o dinheiro e seguiu. Na vila mais próxima, alugou um táxi e foi até uma rodoviária. De lá, Buenos Aires e depois Santiago do Chile. Hoje ele usa o curso de administração para cuidar do dinheiro que recebeu de forma inesperada. Tem dois apartamentos alugados e passeia com dois seus cachorros que adotou em uma feira de cães abandonados. Nunca mais soube dos outros. Quando estava em um cabeleireiro, João Alberto folheava uma revista de fofocas e, de imediato reconheceu Thiago e a mulher do gerente do banco morto no assalto. Na matéria estava escrito que, depois de sofrer com a perda do marido em um assalto a banco, Jaqueline, agora proprietária de uma butique badalada, anunciara seu noivado com o campeão de Motocross Thiago Fontana. O encontro dos dois, segundo a matéria, tinha acontecido em Bariloche onde a jovem viúva tentava se recuperar do trauma de perder o marido e de ser sequestrada como garantia de fuga e abandonada em outra cidade muitas horas depois. João Alberto riu alto. O cabeleireiro ficou sem saber o que dizer quando ele pediu para levar a revista que já estava toda esmolambada pelo fato de muitos a terem folheado. “Eu pago pela revista, mas vou precisar dela”, falou em péssimo espanhol. O cabeleireiro não cobrou. João Alberto seguiu pela rua rindo da situação ainda sem entender nada sobre a guinda que sua vida dera. Pouco depois do assalto, João Alberto depositou todo o dinheiro da dívida do crédito educacional. Fez a transação de uma agência da fronteira, em uma das poucas vezes em que voltou ao Brasil. Também pagou os aluguéis atrasados ao casal de idosos. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 16h05
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Tarefa Depois da tarefa cumprida, a sensação de que Deus está aqui. Cansaço físico é nada diante da grandeza de se sentir útil. A pedra na mão operário deixa de ser bruta, vira arte, torna-se beleza explícita. A palavra dita na hora certa cura todos os males. Entro na casa e sinto que fiz o que pude. Percebo que o mundo não é tão complicado. Constato que há beleza por todos os lados, basta querer ver, sentir. Para ser feliz é preciso de muito pouco. Para ser feliz basta apenas sentir o amor, a verdade e a simplicidade. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 18h21
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A tarde e você E tudo se tornará passado em ti, se é que ainda não se tornou. Minha ausência não fará mais parte de ti. Serei apenas uma vaga lembrança nas noites de insônia. Serei teu passado que não mais mexe contigo. Caminharei a passos lentos, quase trôpegos. Serei sua ausência nas tardes. Serei a vida cotidiana que se seguiu. Talvez eu seja um nada mesmo. Por vezes penso que nunca passei de uma brincadeira, de um apêndice que te aliviou a solidão. Apenas isso... Há fases em nossas vidas. Há desejos contidos que não se esvaecem. Tenho em mim todas as memórias. Carrego comigo tudo de ti como um amuleto. Ainda machuca e me consome, mas nada faço, pois sou para ti apenas ausência. Sou como a tarde que morre, que agoniza, mas que mesmo assim não deixa de se mostrar bela e calma. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 20h15
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