Viga-mestra A pureza desta alegria é o que me move. Este sorriso contagiante é o que me guia. Sou eu mesmo ao teu lado. Dançamos e brincamos com a vida. Sou parte de ti, assim com és parte de mim. Somos o amor na sua mais pura essência. Todos os dias contigo têm gosto de sábado. Abraçar-te é sentir que os deuses estão a nosso favor. Falar de amor é desnecessário, quando se tem à mão o poema mais perfeito, você. Sinto-te cada vez mas perto. Sou você que saiu de mim. Somos o resultado de algo divino. Devemos tudo isso aos céus que a todo instante conspira para que haja sempre amor, amor além de mim, além de ti, amor além da vida. Se chorares um dia, lembre que também choro. Lembre-se também que teu sorriso é o que me move. Somo dois da mesma matéria. Somo pai e filha que se confundem. Somos a vida que regozija. Dependemos da viga-mestra que nos sustenta, o amor. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 19h56
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Eu mesmo Imbuo-me de paz. Resisto ao tempo e à ganância. Vou na manha, sem pressa. Ando a passos lentos. Chego, mesmo tarde, mas chego... Quero este friozinho gostoso. Quero amar sem medida. Quero caminhar pelas ruas e ser eu mesmo, sem medo, sem máscara. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 12h00
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A essência que ficou Hoje está frio aqui. Vontade louca de voltar no tempo, no tempo em que eu nada sabia, no tempo em que tudo sentia. Queria voltar no tempo mesmo que fosse pra sofrer. Queria te encontrar, mesmo que não me olhasse. Eu acho que valeria a pena. Tenho a certeza plena de que seria melhor. Saudade da cidade pequena. Saudade da gente simples. Saudade de te olhar passando. Vontade de tocar tua mão quando me ensinava uma lição. O tempo se foi e você ficou. Eu estou aqui sem nada, apenas com lembranças... Queria poder te dizer o que carrego comigo. Se eu pudesse, falaria tudo de uma vez. Mas não posso. Minhas palavras falham. O som de minha voz cala e os sentimentos ficam. O amor que antes eu não entendia, hoje sei que é para sempre e que machuca. Sei que houve um tempo em que mesmo na dor, eu era feliz. Nesse tempo, eu sonhava, eu te imaginava e vivia... Tudo está aqui comigo. As lembranças continuam lá. Você continua lá, mesmo não estando. Para mim você ainda é a mesma. Para mim, você carrega a essência do amor... Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 11h54
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Marta, uma visão Geraldo havia se matriculado na faculdade particular com um único objetivo: namorar o máximo de meninas que conseguisse. Na verdade, namorar não era bem a dele. Ele queria mesmo era “pegar” a mulherada como dizia. E foi assim que aconteceu, pelo menos era assim que estava acontecendo até o dia em que viu a moça alta, de seios fartos e cabelos negros e longos pela primeira vez. Geraldo tentou uma aproximação como sempre fazia, exibindo-se e mostrando seu carro, um potente turbinado. Nada. A moça nem fez menção de responder suas cantadas. Geraldo ficou furioso e, pela primeira vez naquele ano foi para casa sozinho. No outro dia, ou melhor, na outra noite, Geraldo tinha um único objetivo, conquistar a moça a qualquer custa. Pra ele, com sua cabeça de pensamentos reduzidos e fúteis, conquistar a moça era como a conquista de um troféu. Chegou mais cedo do que de costume e viu a moça pelo saguão da faculdade. Ele não sabia qual curso a moça fazia. Na verdade, Geraldo não sabia direito nem qual curso ele próprio fazia. Como a moça estava sozinha, ele chegou junto. Jogou um papo para cima dela e não colou. “Eu te ofereço uma carona. Hoje vai chover e eu te levo. Você não tem carro, tem?”, perguntou. “Não, eu não tenho carro. Eu nunca tive um carro, eu nunca teria um carro”, disse ela rispidamente, mas com uma voz melodiosa e terna, o que deixou Geraldo ainda mais enfeitiçado por ela. Ele nunca tinha se sentido assim por nenhuma mulher. Era como se pela primeira vez ele se desse conta de que sentia algo por alguém. Sem que ele esperasse, ela continuou: “Se você quiser me acompanhar, eu aceito, mas vou a pé. Topa andar a pé comigo?” “Topo. Topo tudo com você”, falou Geraldo empolgado. A moça riu de escárnio e estendeu-lhe a mão: “Muito prazer, eu sou Marta Prado”. Geraldo disse seu nome e sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. A mão de Marta estava como uma pedra de gelo. “Deve ser de emoção”, pensou ele imaginando-se como sempre, irresistível. Era hora de começarem as aulas e Marta disse que antes ia ao banheiro. Geraldo a viu entrar, mas não a viu sair. E ele ficou por mais de quarenta minutos esperando na porta, causando espanto às outras moças que por ali passavam. Geraldo foi para sua sala e incomodou seus colegas por algum tempo e, quando se deu conta, já estava na hora de sair. Marta estava na porta. Ele não fez nenhum comentário sobre o sumiço dela antes do início das aulas. Ela olhou para ele e disse: “Vamos!” Geraldo a acompanhou. Havia deixado o carro em um estacionamento com recomendações ao manobrista para que tomasse o máximo de cuidado com seu possante. Assim que começaram a caminhar, relâmpagos cortaram o céu, mas Marta não se importou. Andava com desenvoltura e com muita sensualidade. Geraldo tinha que apressar o passo para acompanhá-la. Apesar de não ser gordo, ele estava completamente fora de forma. Andar de carro todos os dias haviam-no transformado em um verdadeiro sedentário e despreparado para a menor caminhada que fosse. Trovões ecoaram e ele ficou preocupado. Sem se dar conta, os dois estavam ao lado de um cemitério, o maior da cidade. Geraldo tremeu e assustado, perguntou: “Você não tem medo de andar por aqui? Não que eu seja supersticioso, mas não curto cemitérios”. Marta havia parado ao lado do portão principal e, novamente rindo de escárnio, disse: “Em outros tempos, meu querido, eu até tinha medo. Ma hoje, não posso ter medo de minha própria casa. Se quiser, pode entrar. Eu vou nessa porque a chuva vem aí”, falou e, transformando-se em uma miragem, atravessou as grades do portão do cemitério. Geraldo ainda a viu entrar em um mausoléu gigante e muito bem trabalhado antes de desmaiar. Caiu e a chuva caiu torrencialmente sobre ele como um dilúvio. Acordou no outro dia em um hospital. Geraldo estava trêmulo e amedrontado. Perguntou para um dos colegas que estava ao lado da cama sobre o acontecido e ele disse que policiais, em uma viatura, passando pelo local, avistaram Geraldo caído e chamaram socorro. “Ninguém sabe o que aconteceu com você. Pela primeira vez você deixou teu carro. O que te deu na cabeça? Está ficando maluco?” “Acho que estou ficando maluco. Na verdade, vou enlouquecer. Mas a moça parecia tão real, tão linda. O nome dela é Marta Prado e ela mora no cemitério”, falou Geraldo quase que sussurrando. “Que moça? Acho que você está delirando, homem. Ontem todos viram você sair da faculdade sozinho. Geraldo, você precisa se tratar, cara. Se continuar assim, muita gente vai embarcar na tua loucura. E a propósito, Marta Prado morreu há mais de cinquenta anos. Ela era de uma família muito rica aqui da cidade e foi assassinada pelo marido. Esta história é quase uma lenda por aqui, mas você não sabe, pois não se interessa por nada além de suas conquistas. Cara, você realmente precisa de ajuda”. “Você tem razão, eu não estou bem. Preciso dormir”, disse Geraldo e virou-se para o lado. Pela janela, antes que fechasse os olhos, viu Marta acenando-lhe como se estivesse em câmera lenta. Geraldo não dormiu, desmaiou mais uma vez. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 11h44
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Valsa do tempo Valso contigo a valsa do tempo. Conduzo-te pelo salão da vida. Namoro-te em noite enluarada. Sinto você minha e eu teu. Busco no embalo da dança a cadência. Cadencio meu coração com o teu. Amo valsar contigo pela vida afora. Somos um sendo nós dois, somos o amor em forma de poema. Poema sem métrica é verdade. Por vezes, somos palavras soltas. Somos o que se constrói com o destino. Vivemos um amor enclausurado, um amor de mistérios. Calores vêm de minha alma. Quando estou vazio, preencho-me com teu brilho. Quando o corpo cala, a mente torna-se insana. Vontade louca de te sentir e dançar com você. Desejos loucos de valsar contigo pela vida. Sensação vital em te conduzir e me deixar levar. Quero a dança do tempo, quero a valsa da vida. Quero tua vida na minha, mesmo que em pensamentos... Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 10h50
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Ainda Respiro Cheguei tarde eu sei. As tempestades tinham passado, a vida tinha passado, o amor também. Cheguei tarde para a festa, cheguei tarde para o amor, cheguei tarde para vida. Não há recuperação para o que se foi. O que foi dito, não tem volta. Restringir os pensamentos é morte. Tentar entender o inexplicável e bater em fero frio. Sentir o amor e a vida, às vezes dói, às vezes, machuca e nos desmonta. Sinto que cheguei tarde para tudo. Sinto que a festa acabou e a mim só restou varrer o salão. Quiçá, também levantar as cadeiras e deixar tudo pronto para outra comemoração, comemoração que não é a minha, comemoração que não sinto. Escrever é sofrer de novo. Escrever e reviver o que nem foi vivido. Sentir duas vezes a mesma dor é ridículo. No entanto, sentindo a dor, sinto que estou vivo e que ainda respiro. Sem motivos, mas respiro. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 12h07
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Inocência Desde que nascemos, somos instigados a buscar. Não sabemos exatamente o que, nem por que buscamos, mas estamos sempre à procura de algo, algo que nos satisfaça ou que dê ao menos a ideia de satisfação. Enganamo-nos nestas buscas, mas a verdade é que são estas buscas que nos movem, que na maioria das vezes nos dão forçar e motivos para sonhar, para encarar a droga da realidade que não faz nada além de nos machucar. A vida de Murilo era mais ou menos assim. Nascido no interior, nunca se conformou com sua condição de rapaz pobre e trabalhador no moinho. Murilo queria mais, sempre mais e partiu para a busca logo cedo. Correu a cidade toda de emprego em emprego, sempre pegando o que aparecia. Nunca conseguiu passar em um vestibular de universidade pública, de modo que uma particular ele sabia que jamais poderia pagar, acumulando assim mais uma frustração. Murilo devorava livros. Era visitante assíduo da biblioteca pública da cidade. Na biblioteca, conheceu Priscila, uma moça magrinha de cabelos ruivos. A paixão foi instantânea e os dois começaram a namorar. O namoro durou dois anos exatos. Murilo decidiu acabar com o relacionamento, porque, segundo ele, precisava ir em busca de sua vida. Ele não queria ficar na cidadezinha para sempre nem tampouco ficar nas idas e voltas com seu emprego no moinho, lugar este que sempre o acolhia em seus momentos de dificuldades. “Eu quero crescer, quero ser alguém e não posso te levar comigo”, disse Murilo e saiu sem olhar para trás. Priscila ficou. Chorou, mas não interferiu na decisão no ex-namorado. Continuou seu trabalho na biblioteca, fez um curso superior à distância e permaneceu na cidadezinha. Depois da morte da mãe, construiu uma nova casa e passou a morar sozinha, uma vez que seu único irmão casou-se com uma professora e ficou com a casa que era da mãe. Murilo desapareceu. Correu mundo, trabalhou em tudo o que aparecia. Focou no dinheiro e o dinheiro chegou. Murilo tornou-se corretor de imóveis passou a ser disputadíssimo pelas grandes firmas da capital. Namorou muitas mulheres, engravidou uma que perdeu o bebê no quinto mês de gestação. Desistiu dela como quem desiste de um objeto e voltou-se totalmente para o trabalho, para o dinheiro que chegava aos montes sem que ele tivesse tempo que gastar. Murilo nunca ligava para a família e a cidadezinha passou a ser algo remoto em suas lembranças. Sentia-se bem a seu modo. Trocava de carro todos os anos, construiu um sobrado invejável, mas tinha uma coisa com a qual em todos aqueles anos ele não conseguiu lidar: a solidão. Murilo evitava ficar em casa. Sempre procurava multidões para sentir-se bem. Por muitas vezes, ligou no meio da noite para agenciadores de mulheres para que lhe enviassem prostitutas. Murilo não queria sexo, queria companhia. Pagava caro, mas não conseguia ficar sozinho. Era sábado e Murilo estava na internet. Procurava uma balada para ir quando o telefone fixo tocou. Levou um susto, pois o aparelho quase nunca tocava. Murilo era moderno em se tratando de comunicação e comunicava-se pelo celular ou através de e-mail, além de usar as redes sociais como base para todos os seus relacionamentos, quer fossem profissionais ou amorosos. “A vó morreu”, ouviu uma voz ao longe com sotaque do interior.
Escrito por Jossan Karsten às 18h33
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Continua... Demorou mais de um minuto para assimilar de quem se tratava. Era seu irmão Sidnei, o mais novo, que assumiu seu lugar no moinho e que lá continuava tocando sua vida. “Morreu como? Do quê?”, questionou depois que tomou consciência do que se tratava. “Morreu de velha. Ela estava com noventa anos, você sabe disso. Sei que você não vem, mas o pai e a mãe pediram para te avisar”, disse Sidnei. De ímpeto, Murilo sentiu como se o sangue da ponta do dedo do seu pé subisse imediatamente para a cabeça. Foi um bombardeio total de emoções. uma espécie de sanidade instantânea lhe invadiu. Olhou para a sala ampla, para os móveis modernos enquanto ouvia a respiração do irmão do outro lado da linha. Sem que ele tivesse qualquer domínio sobre si, disse: “Eu vou”. Desligou o telefone, arrumou a mala, pôs no carro e partiu. Na estrada, pegou tempestades. Sentiu frio e mal parou para comer alguma coisa. Chegou à cidade e rumou para a casa mortuária onde a avó estava sendo velada. Ninguém o reconheceu de imediato. Foi até os familiares e os abraçou, mas sentiu que eles não estavam à vontade com sua presença. Era como se eles tivessem receio de alguém superior. Ele se sentiu horrível com isso. Conversou um pouco com algumas pessoas, olhou para a avó morta no caixão e sentiu que ela estava com a expressão melhor do que quando viva. Lembranças lhe invadiram a alma. Lembrou de quando a avó tirava o último centavo da aposentadoria para pagar seus cursos de redação comercial, de datilografia e de informática. Lembrou de quando, sem nada de dinheiro pedia para que ela comprasse um tênis, ou uma cueca e ela o fazia sem nada perguntar, sem nada questionar. Murilo foi invadido por uma emoção muito forte e chorou. Chorou de tremer e muita gente que estava ali que não o conhecia, ficou preocupada. De repente, Murilo se viu envolvido por braços delicados. Uma voz calma e mansa sussurrou em seus ouvidos: “Calma, calma. Vai ficar tudo bem. Todos aqui a amávamos”. Murilo nem precisou se voltar para a dona dos braços para saber que se tratava de Priscila. Sem se dar conta ele se deixou conduzir para fora do velório. Em pouco tempo os dois caminhavam pela rua com pouca luz, mas que se mostrava tão nítida em sua memória. Era a rua de sua vida, a rua pela qual tantas vezes caminhou. A rua na qual muitas vezes chorou e onde teve a felicidade verdadeira também ao lado de Priscila, como fazia agora. Priscila o levou até sua casa. Um lugar pequeno e aconchegante. Entraram e Murilo se sentou no sofá da sala. “Eu trocaria meu sobrado gigante por esta casa e por este aconchego”, pensou. Priscila não tinha mudado em nada. A mesma beleza, a mesma simplicidade. Continuava sem ganância nenhuma e extremamente amável. “Perdi esta mulher”, pensou e sentiu um calafrio, um arrependimento lhe invadir por inteiro. Priscila preparou um café quente e serviu bolo. Já era madrugada e ela disse que havia arrumado uma cama para ele. “Você tem alguém?”, perguntou Murilo sem rodeios. Rindo, ela respondeu: “Tenho sim. Tenho dois sobrinhos fazem minha alegria”, disse rindo. Ela completou: “Depois de você, depois da nossa história, confesso que fiquei decepcionada com o amor. Eu notei depois que você se foi, que o amor por si só não se basta, que é necessário algo mais, uma carreira, uma vida pública, sei lá o que. Mas sei que isto não é para mim e minha vida, minha maneira de pensar, ao que notei, não faz a cabeça de ninguém. Então, se é assim, prefiro ficar sozinha, com minha vidinha medíocre, com meu trabalho simples, mas que me mantém viva e, de certa forma feliz”, falou em tom de desabafo, mas sem perder a delicadeza e o sorriso. Murilo sentiu-se sufocado e voltou a soluçar baixinho. Priscila o conduziu até o quarto que tinha arrumado e ele, com roupa e tudo, caiu num sono profundo. Despertou com Priscila chamando. Já passavam das dez da manhã. “O enterro está saindo. Vamos. Eu te levo”. Lavou o rosto às pressas e entrou no carro de Priscila, um modelo de mais de dez anos e rumaram ao cemitério. A cidade compareceu em peso ao sepultamento. Sua avó sempre fora muito querida por todos. Um pastor e um padre fizeram as orações e rapidamente os funcionários do cemitério fizeram seus trabalhos num jazigo simples, onde o avô de Murilo estava enterrado. Tão logo o sepultamento terminou, uma chuva começou a cair. Priscila seguiu os carros dos pais e dos irmãos de Murilo. Encontraram-se na casa da família e havia um almoço pronto. Em muitos anos, era a primeira vez que a família estava toda reunida. Os irmãos haviam mudado. Tinham filhos que Murilo não conhecia. Os pais estavam mais velhos e mais sofridos, mas ainda com brilho nos olhos e com alegria. Murilo sentiu-se um estranho, mas também sentiu uma alegria inexplicável por estar de volta. Não tinha mais medo da solidão como quando estava em casa na capital. Acompanhado de Priscila, antes que o almoço fosse servido, os dois foram até a casinha nos fundos do terreno onde a avó morava. Tudo estava no mesmo lugar. Murilo desabou ao entrar no pequeno quarto e ver uma foto sua na cabeceira da cama da avó como se fosse uma imagem de santo a lhe vigiar. Abaixo, com letras tremidas de semianalfabeto, estava escrito: “Este meu neto é como um filho”. A chuva caía mansa no telhado. Murilo sentou-se no sofá, olhou para as paredes da minúscula sala, pegou na mão de Priscila e disse: “Vamos recomeçar?” “Você acha que suporta a mesmice desta vida sem graça que você tanto abominou?” “Eu não suporto mais a vida horrível que tenho tido, Priscila. Eu preciso parar de interpretar e ser eu mesmo, nem que seja pela última vez”. Em pé como estava Priscila começou a afagar sua cabeça. Murilo sentiu-se amparado e uma sensação de paz tomou conta de seu corpo. Os dois levaram um susto quando uma menina de uns cinco anos, sobrinha de Murilo entrou na casa e disse: “É pra vocês irem comer a vó disse”. A menina saiu em disparada rumo à casa dos avós e Priscila e Murilo começaram a rir de sua atitude e inocência. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 18h33
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Te amo sem rodeios Eu odeio dizer que bateu saudade. Eu odeio dizer que te amo. Eu sinto que a vida não passa sem você. Nada tem graça, nada respira. Não sei quem de nós merece o amor de quem. Só sei que me enlouquece, que me domina. Somos a paixão em seu ápice. Somos loucos que entram em devaneios. Vivemos e sofremos um amor sem futuro. Um amor que nada nos oferece, mas que é maravilhoso. Sinto tua falta. Sinto a falta do teu cheiro, do teu sexo despudorado. Sinto tua pele na minha, teus seios em meu peito. Lembro de tudo em pouco tempo. Não esqueço um só instante da magia do amor. Sou você em mim e te amo. Perco-me em parcas esperanças. Encontro-me dentro de ti. Sou o amor traduzindo em você. Vivo o reflexo de um momento. Norteio-me com tua imagem pela vida afora. Não consigo me livrar dessa coisa louca chamada amor. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 13h37
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Chuva na estrada Rodando por estas estradas nos deparamos com situações inusitadas. Muitas tristes, outras divertidas e algumas até bizarras. Todas têm seu grau de importância e nos fazem crescer, mas há algumas destas situações das quais mesmo que passem mil anos, não esqueceremos jamais. Eu viajava de férias, sozinho, em meu carro novo. Carro este, que demorei uma vida toda para comprar, mas que a meu ver, valia cada centavo pago. Era um modelo esportivo, pequeno, vermelho e muito veloz. O carro chamava a atenção e, acho que em meu inconsciente, eu tinha o objetivo de chamar a atenção mesmo. Rodei bastante, cerca de trezentos quilômetros e decidi parar para urinar e comer alguma coisa. Eu havia saído muito cedo de casa e senti fome. Não exigia quase nada do carro, eu queria era curti-lo, sentir a maciez do couro dos bancos, a firmeza do volante e desfrutar sem pressa de cada equipamento que o carro possuía. E para isto, para aproveitar mais tempo do carro, eu precisava andar devagar. E foi o que fiz. Sem mais nem menos começou a chover. Parei em um posto de combustível que tinha anexo um grande restaurante e loja de conveniência. O local era, além de parada de caminhoneiros, também parada de ônibus que faziam baldeações para várias outras cidades pequenas. O movimento de pessoas e de veículos era intenso no local a qualquer hora do dia ou da noite. Estacionei lentamente e notei que muitos me olharam. Na verdade, olharam para o carro. A chuva engrossou e eu pedi para completar o tanque. Rapidamente o frentista me atendeu. Saí dali o quanto antes e estacionei ao lado do restaurante. Os olhares sobre meu carro estavam me incomodando, era como se eu tivesse cometido algum pecado em ter o carro. Ou seriam coisas da minha imaginação apenas? Procurei um estacionamento mais isolado, tranquei o carro e, rapidamente, tentando escapar da chuva, corri até o restaurante. Entrei e todos pareciam me olhar. “Estou ficando paranoico”, pensei. Mas a sensação que eu tinha era esta, a de que todos estavam me olhando e não tinha nada a ver com o carro. Acho que ninguém ali no estabelecimento sabia qual era meu carro. Dispensei o restaurante. Aproximei-me do balcão da lanchonete e pedi um sanduíche e um refrigerante. Enquanto comia, um homem que, pelo que calculei, deveria ter uns trinta e cinco anos, de mochila nas costas, calça jeans e camisa xadrez, aproximou-se de mim e disse: “Estou precisando de uma carona. Será que pode me ajudar?”. Confesso que levei um susto. Olhei para o rapaz e sem pensar, respondi incisivo: “Não”. Já tinha me preparado para uma saraivada de lamentações, de lamúrias de que ele precisava da tal carona de que iria visitar um parente doente ou coisa parecida, mas nada. Ele simplesmente disse: “Tudo bem”, e se afastou.
Escrito por Jossan Karsten às 17h18
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Continua... Fiquei pensativo com aquilo e comecei a me questionar: ele sequer perguntou para onde eu estava indo. Também não disse qual o objetivo da carona. Simplesmente pediu e pronto. Achei muito estranho e um frio me percorreu o corpo todo. Uma espécie de medo, misturado com emoção, sei lá. Tentei disfarçar e terminei de comer o lanche. Pedi um café, tomei e quis sair dali o mais rápido possível. Paguei, fui ao banheiro, lavei minhas mãos, escovei meus dentes, fiz xixi de novo e rumei para o carro. A chuva estava ainda mais forte e um funcionário do estabelecimento, segurando um grande guarda-chuva, levou-me até o carro, como fazia com vários clientes que tinham estacionado distante. No trajeto até o automóvel, o funcionário, um rapaz gordinho, como que para puxar conversar, disse: “Hoje, uma sexta-feira 13 e com uma chuva dessas, é para acabar com a gente, não?” “Verdade”, respondi querendo chegar logo até o carro e me livrar do moço que julguei um chato. Achei muito estranho que o rapaz sequer fez menção de olhar para meu carro. Agradeceu pela preferência e eu no fundo sabendo que ele estava odiando a todos os clientes que, num dia chuvoso como aquele, fazia com que funcionários como o gordinho se molhassem da cabeça aos pés para mantê-los secos em seus carros. Não sou de dar gorjetas, mas como que agradecendo ao funcionário por não ter posto o olho em cima do carro, tirei dez reais do bolso e lhe ofereci. Ele olhou para mim, sorriu com uma cara de desdém e falou: “Obrigado, amigo. Nós temos salário aqui. A cordialidade faz parte do serviço. Faça uma boa viagem”. Entrei no carro, dei a partida e acendi todas as luzes existentes. A chuva caía como um dilúvio naquele momento, mas mesmo assim decidi seguir viagem. Algo parecia me dizer para sair dali o quanto antes. A frase do funcionário: “hoje, uma sexta-feira 13 e com uma chuva dessas, é para acabar com a gente, não?”, não me saía da cabeça. Manobrei e lentamente saí do estacionamento. Vi o rapaz com o guarda-chuva levando outro cliente e, pensei eu, provavelmente dizendo a mesma frase e recusando as gorjetas porque tinham salário da empresa e o serviço de ajudar aos outros estava incluído na cortesia. Um pouco antes de entrar na rodovia movimentada mesmo com a chuva, vi o rapaz de jeans que havia me pedido carona na lanchonete. Ele estava sob a chuva intensa e sorria. Passei por ele, mas logo parei. Senti o mesmo calafrio de antes e uma sensação de culpa horrível. Buzinei, ele entendeu o sinal e correu para o carro. Enquanto ele se aproximava, pensei: “vai molhar todo meu acento, mas ainda bem que é de couro”. O rapaz entrou e eu fiquei pasmo. Não havia uma gota sequer de água em suas roupas nem na sua mochila. Ele ajeitou a mochila no banco traseiro, puxou o cinto de segurança e eu não resisti e perguntei: “Como pode você não ter se molhado?” Ele olhou para mim com aquele sorriso que eu não sabia se era de desdém, de sarcasmo ou de sinceridade e disse: “É que fazia muito pouco tempo que eu estava na chuva e você logo apareceu. Por isso não me molhei muito, só um pouco”, disse mostrando a manga da camisa que eu sabia, não estava nada úmida. “Para onde você vai?”, perguntei. “Pode me deixar na próxima cidade”, falou desta vez, sério. A próxima cidade, eu sabia, ficava a mais de duzentos quilômetros dali. Eu pensei tanta coisa, senti de novo aquele arrepio estranho, mas nada disse. Acelerei, dei passagem para um carro em alta velocidade, entrei na rodovia e segui. O rapaz se manteve em silêncio. Olhava para frente e nem parecia piscar. Pouco tempo depois, achei que ele estava dormindo. “Menos mal”, pensei. Liguei o rádio em uma estação local e segui. Já tinha rodado vários quilômetros. Meu carona não dizia uma palavra e eu muito menos. Achei até divertida a situação, como em um jogo de quem fica mais tempo sem falar, que fazia quando era criança. Como que em um estalo, veio à minha mente a imagem de um caminhão de tora. O caminhão ziguezagueava e as toras caíam na pista. Uma delas caía em cima do meu carro e depois disso, a visão de uma brancura total. Tremi. O rapaz do lado olhou para mim com o sorrido de sempre, e viu meu pânico. Eu havia diminuído bruscamente a velocidade e ele então falou: “É isso mesmo que você viu. A visão foi antecipada alguns minutos, mas é isto mesmo. Tudo está em tuas mãos agora”, disse voltou a olhar para frente como se estivesse em outro mundo, como se estivesse dormindo. Fiquei louco e tive vontade de dar um soco na cara dele. Era muita ousadia o cara pensar que conseguia ler meus pensamentos. Depois da curva, um caminhão como em minha visão rodava a uma velocidade não tão alta. Segui o veículo mais um pouco e súbito, dei sinal e parei no acostamento. Um carro que vinha atrás do meu buzinou com raiva. Em seguida, outros passaram buzinando também e nós ficamos ali, só observando a cena que se desenrolou em seguida. O carro que buzinou raivosamente seguiu atrás do caminhão e, em seguida, as toras começaram a despencar. Uma delas atingiu em cheio o para-brisa do automóvel e um verdadeiro caos se estabeleceu. Todos os carros bateram uns nos outros. Quem vinha em sentido contrário também bateu e em pouco tempo a estrada havia se transformado em um verdadeiro inferno debaixo do temporal. O rapaz olhou para mim e disse: “Você fez a coisa certa. Siga teu instinto, siga tua intuição sempre”. Eu estava em estado de choque. O rapaz pegou um aparelho de celular da mochila e telefonou não sei para quem, provavelmente para a empresa concessionária da rodovia. Ele saiu do carro e eu o segui. A chuva parou instantaneamente, mas o dia continuava muito escuro. Caminhamos entre os carros acidentados e pessoas gritavam por todos os lados. O rapaz, com toda a calma o mundo foi abrindo as postas dos veículos com uma facilidade impressionante, como se ele fosse um verdadeiro guindaste. Pessoas saíam dos carros assustadas. Tentei imitá-lo e consegui. Eu abria portas de veículos como se puxasse uma folha de papel. Cheguei perto de um ônibus de turismo e puxei a porta que estava prensada contra um caminhão de frango. Ela simplesmente abriu. Eu não sabia mais nada de mim, mais nada de nada. Meu mundo tinha virado de cabeça para baixo. Abri mais algumas portas e levantei uma moto muito estragada com seu condutor em pânico. O resgate chegou no mesmo instante em que o rapaz estava ao lado do carro que passou por nós buzinando e que primeiro tinha sofrido o acidente. Vi que havia um casal nos bancos da frente e um menino e uma menina no banco de trás. Estavam todos mortos. O carro estava estraçalhado. O rapaz deixou seu lado calmo e correu como se estivesse em uma competição. Puxou a porta do carro com força, abriu-a com facilidade e tocou com as duas mãos nos ocupantes do carro que julguei estarem mortos. A menina começou a tossir e a chorar. O menino gritava. O pai e a mãe com cara de espanto tentavam entender tudo aquilo, como se estivessem acordado em meio a um pesadelo. O rapaz, vendo os socorristas se aproximarem, puxou-me pelo braço e nós nos retiramos ouvindo os bombeiros pedindo para que todos se afastassem. Estávamos a uma boa distância quando um dos homens do resgate gritou: “Isto só pode se um milagre. Eles nasceram de novo”. O rapaz sorriu e disse-me: “Vamos sair daqui. O pior já passou. De agora em diante é só danos materiais e discussões desnecessárias. Nós fizemos a nossa parte”. Entramos no carro e tudo o que eu queria era voltar. O rapaz disse que havia um atalho por uma estrada de chão e que eu poderia seguir meu caminho sem medo. Acatei a ideia. Manobrei à esquerda e entrei em uma estradinha cascalhada. Rodamos menos de um quilômetro e entramos na rodovia novamente. Eu não me reconhecia. Meu susto havia passado. A chuva tinha cessado e eu tinha muito a perguntar ao meu companheiro. Avistei um posto de combustível e, sem nada dizer a ele, entrei. Parei o carro em um local coberto e ele saltou: “Preciso me aliviar”, disse e entrou no banheiro. Entrei também e lavei meu rosto na pia. Ele voltou e, enquanto lavava as mãos, olhou-me com aquele sorriso estranho e falou: “Todos os dias aprendemos coisas. Eu aprendo muito com meus erros. Sempre que posso ajudar, não hesito, é uma maneira que encontrei de me redimir. Todos nós temos uma grande força que sequer sabemos que existe. Siga teu caminho. Eu vou ficar por aqui. Mudei de ideia. Vou para outra cidade agora. Boa viagem e nunca esqueça que há sempre algo por fazer pela vida afora. Faça. Nunca esqueça que a força está dentro de nós e ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal”. Eu fiquei sem saber o que dizer e nem me mexi do lugar. O rapaz saiu. Sequei o rosto com uma toalha de papel e saí atrás a passos largos. Ao me aproximar do meu carro, vi que ele estava do lado da rodovia e pegava carona em uma caminhonete azul. A caminhonete seguia para o mesmo lado em que eu seguia. Entrei na lanchonete do posto e pedi um café e um sanduíche de queijo. Enquanto comia, um raio cortou o céu e refletiu no vidro da lanchonete. Uma chuva torrencial começou a cair e eu decidi que só sairia dali depois que a tempestade acabasse. Pedi mais um café e um pedaço de frango e fiquei olhando meu carro e a chuva pela vidraça enquanto a sexta-feira 13 virava noite escura. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 17h18
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Casa e sonho No projeto da casa, o sonho do homem. No alicerce, sangue e suor se misturam. Em cada parede a certeza de algo próprio. Nas noites de cansaço, a paz de um lar. Quando se sonha, se constrói. Visando o final, o começo é mais leve. Em cada tábua, a certeza da concretização. No concreto, a resistência e a leveza do sonhar. Uma casa tem vida própria. Um lar é órgão vital. Viver em paz requer segurança. Estar seguro requer sonhos. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 15h00
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Teimosia Às vezes dá um aperto no peito. Em momentos a solidão se abate sobre mim. Lembro do que poderia ter sido. Tenho que me encostar a algo para não cair... A saudade é tanta, mas tanta, que o coração dispara. O medo também entra na história. A verdade faz com que tudo desabe. O amor sobrevive, aos trancos e barrancos, mas ele sobrevive... Lentamente tomo meu rumo. Com jeito, para não me machucar mais, ando para frente. Sei que nada volta no tempo. Sei que os sentimentos não são os mesmos, embora teimem em ser... Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 09h21
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Estafa Sentiu um calorão invadir-lhe o corpo todo. A raiva cresceu tanto, mas tanto que ela não teve outro jeito senão explodir. Atirou o podão longe, quase atingindo um dos companheiros e saiu em disparada deixando atrás de si o chapéu, o pano que lhe cobria o rosto e, assim que chegou à estrada de terra, livrou-se das botas de borracha que lhe comiam os pés. “Nunca mais me pegam neste inferno”, pensou. Ela estava decidida. Podia morrer ou até matar, mas estava decidida. Ali não ficava mais, de jeito algum. Aquele calor infernal? Aquela vida de escravidão? Jamais. Sandra parou com tudo em sua vida para dedicar-se de corpo e alma à mãe. A velha, que fumava como uma chaminé, ficou travada em uma cadeira de rodas por cinco anos e quando finalmente morreu, deixou para Sandra dívidas e uma vida cortada aos pedaços. Sandra não pode estudar o quanto queria. Seu sonho era ser artista plástica, mas tudo o que lhe restou, foi trabalhar como doméstica enquanto a mãe ainda era viva e depois da morte dela, encarar o corte de cana naquele calor infernal e além do mais, precisava suportar todos os tipos de assédios dos outros trabalhadores, a maioria homem e tarados. Sandra aguentou duas safras. A pequena casa onde morava há muitos anos fora penhorada desde a morte do pai em um acidente com um rolo compressor. A mãe nunca conseguira resgatar a hipoteca, pois depois da morte do marido, além de sofrer um grande abalo na saúde, também gastara mais do que podia, principalmente em coisas que não precisava. A moça alta, de ancas definidas, de cabelos e olhos negros causou espanto no atendente da agência de boias frias quando foi fazer um cadastro para cortar cana. Sandra estava farta de limpar casas dos outros e de suportar as piores chacotas e convites obscenos dos patrões. Por causa disso, de sua beleza, as mulheres a odiavam. Com isso, ela ficou sem trabalho, logo, sem comida e sem dinheiro para pagar as contas. Com a mecanização das lavouras, o corte de cana só era feito manualmente nos piores terrenos. Dado isso, Sandra e os demais trabalhadores sofriam em dobro para executar suas tarefas, sendo que o pagamento era menor em relação aos outros anos, quando todo o trabalho da região era feito manualmente. O sindicato foi extinto com a mecanização e eles viviam como costumavam dizer, sem pai nem mãe, soltos pela vida à mercê dos agenciadores. Dois anos ela resistiu. Pagou as contas e resgatou a hipoteca da casa. Reformou o imóvel e comprou alguns móveis novos. Guardou dinheiro também que ela evitava saber a quantia. Raramente tirava um extrato de sua poupança. Seu corpo, com o trabalho braçal, ficava cada vez mais lindo. A natureza, em se tratando de beleza, conspirara a favor de Sandra. Só que com isso, os assédios se tornavam cada vez mais insustentáveis e, teve uma vez em que Sandra ameaçou de cortar o pescoço do agenciador com o podão. Todos os trabalhadores tinham o costume de chamar o agenciador de “Gato” e a maioria via nele uma autoridade acima do bem e do mal. No dia do episódio, as poucas mulheres que trabalhavam no corte de cana disputando as migalhas com os homens, ao invés de se solidarizarem com a colega, ficaram veementemente contra ela. “Isso que dá essas putas no serviço. Com essa bundona ninguém consegue trabalhar em paz”, disse uma gorda com cara de homem. “Meu marido não trabalha perto dela. Isso é um acaba-casamento. Nunca deixe teu homem perto destas sirigaitas. E onde se viu querer brigar com o “Gato”, um homem tão bom que arruma emprego pra gente nesta época de maquinário”, esbravejou uma mulher que parecia ter morrido há muito tempo, pois sua silhueta era um esqueleto ambulante. Todos esses acontecimentos foram acabando com a autoestima de Sandra e uma espécie de depressão se apossou da moça. Tentou fazer um tratamento, mas tomou consciência de que o problema estava mesmo em sua cabeça e que cabia a ela mudar ou não. Depois da reação ao assédio do administrador, Sandra passou a ser tratada com hostilidade por ele, o que, de certa forma lhe causou medo. Ela trabalhava sempre atenta às maldades que pudessem lhe acontecer. Teve a prova dessa maldade no dia em que parou para o almoço e viu que sua marmita estava cheia de todos os tipos de porcarias que pudessem existir. Sandra trabalhou com fome o dia todo.
Escrito por Jossan Karsten às 16h04
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Continua... Desde o início dos trabalhos naquela manhã, ela estava se sentindo muito pior do que nos outros dias. Não conseguiu almoçar e o trabalho não rendia como em outros dias, quando ela deixava todos para trás e seu eito era o mais devastado pelo podão. Sandra pensou e repensou sua vida. Era uma moça sozinha, sem sonhos, sem família, sem nada. Sentiu que nada tinha a perder. A explosão de raiva, de desespero, de medo e de sensações que ela nem sabia que existam lhe invadiram e ela abandonou tudo. Depois de atirar as botas de borracha para longe, Sandra sentiu seu pés queimando ao contato com a terra quente, mas ao mesmo tempo, uma sensação de liberdade e de felicidade lhe invadiu por inteira: “Eu precisava ter feito isso há muito tempo, eu precisava disso”, pensou enquanto acelerou mais a marcha. Ouviu um barulho de carro atrás dela e tremeu. Pensou ser o administrador. Não era. Era um furgão de entrega de um supermercado. Pediu carona e foi atendida. O motorista, um homem idoso nada lhe perguntou sobre os motivos de ela estar correndo descalça na estrada, no entanto, ela sentiu simpatia por parte do homem que a deixou em frente a casa e antes de partir lhe disse que se precisasse de alguma coisa, era só Le procurar. “Ainda há gente boa no mundo”, pensou Sandra. Sandra agradeceu, entrou na casa, tirou toda a roupa suja e fedorenta, pôs tudo em um saco para lixo e entrou no banheiro. Deixou a água fria bater em seu corpo suado e tomou o banho mais demorado de toda a sua vida. Vestiu uma roupa leve, preparou um lanche e comeu sem pressa. Foi ao quarto, pegou uma caixa de sapato onde guardava suas economias, separou tudo em vários maços. Pegou o último estrato da poupança e notou que também tinha um bom montante lá. Ela sabia que o extrato representava menos do que tinha guardado, pois muito raramente ela imprimia um demonstrativo. Vestiu uma roupa nova que há muito tinha comprado, arrumou uma pequena mala com mais algumas peças de roupa, fechou o gás e a água. Conferiu a geladeira vazia, pois não tinha tido tempo de ir ao supermercado. Desligou também. Desligou o disjuntor de energia, trancou a porta e o portão e saiu a passos largos. Foi até a rodoviária e comprou uma passagem para uma cidade distante. O ônibus sairia dali a uma hora. Ela ficou no aguardo. Anoitecia e, de onde estava, pôde ver o caminhão com toldo que transportava seus colegas cortadores de cana. Eles embarcavam e desembarcavam em um ponto próximo à rodoviária. Sentiu novamente a tristeza e a raiva lhe invadirem. Sentiu um ódio tremendo quando viu o “Gato” descer com uma arrogância sem igual e começar a fazer os pagamentos do dia. Sandra deixou a pequena mala na agência de passagens e foi até o caminhão. “Quero receber pelo trabalho de hoje”, disse sob o olhar de estranheza de todos ali. Ela podia passar por todos na rua que ninguém a reconheceria, disso ela teve a certeza. O “Gato” tomou um susto, em princípio, mas depois, enlouqueceu: “Não te devo nada, sua piranha. Vagabunda. Suma daqui. Senão te mato”. Ao ouvi-lo dizendo isso, Sandra sentiu medo novamente, mas não recuou. “Quero o que é meu ou vai se vir comigo”, falou com firmeza. Os outros trabalhadores fizeram um pequeno motim e os transeuntes pararam para olhar. Em pouco tempo a aglomeração era total e o “Gato”, sentindo-se acuado, avançou sobre Sandra. A moça desviou do ataque, mas ele estava decidido a machucá-la e novamente investiu sobre ela. A polícia chegou e a moça permaneceu onde estava. O administrador foi detido pelos policiais, mas não se acalmou. Largou a pasta que sempre mantinha em suas mãos e aos gritos, tentava explicar sua raiva. Sandra, aproveitando-se da distração coletiva, pegou a pasta que ela sabia, tinha uma arma em seu interior e, lentamente, rumou para a rodoviária. Entrou como se nada tivesse acontecido com ela e se impressionou com a própria frieza. Pegou sua mala na agência e foi até o banheiro. Abriu a pasta do administrador e viu que, além da arma, um revólver calibre 38 de cano longo, havia uma vultosa soma em dinheiro. “Aqui tem muito mais do que ele pagaria para nós”, pensou. Pegou todo o dinheiro, jogou a arma e a pasta na grande lixeira ao lado da pia e voltou para o saguão. Seu ônibus estava encostado e ela entrou. Viu pela janela que o aglomerado de pessoas continuava. Enquanto o ônibus se afastava, ela percebeu que naquele momento, eram os trabalhadores que tentavam agredir o “Gato”, provavelmente reclamando suas diárias. A polícia tinha aumentado seu contingente e, pelo que Sandra percebia algo de grave aconteceria ali. Sentiu o corpo leve quando o ônibus entrou na rodovia. Era como se pela primeira vez ela sentisse a vida. Era como se pela primeira vez a palavra liberdade lhe significasse alguma coisa. Um rapaz alto, de óculos e cabelo cortado em estilo militar levantou-se de sua poltrona e foi até os fundos do ônibus pegar uma garrafa de água na geladeira. Sandra olhou para ele e sorriu. Ele sorriu de volta. Quando retornava para seu assento, ao passar por Sandra, ele perguntou: “Está vazio este banco?” “Está sim”, respondeu Sandra tremendo. O rapaz sentou-se ao lado da moça e, estendendo sua mão gigante, disse: “Muito prazer, sou Francisco”! “Sou Sandra”, respondeu a moça e sorriu como nunca ao apertar a mão do rapaz. Jossan Karsten
Escrito por Jossan Karsten às 16h04
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