Após tragédia em quadra, autoridades silenciam

Polícia vê dificuldade para apurar a responsabilidade pela morte do jogador Robson Costa, ferido por tiras de madeira soltas pela quadra do ginásio municipal

Publicado em 09/03/2010 | José Luiz dos Santos

Ainda sem conseguir justificar o acidente que resultou na morte do jogador de futsal Robson Rocha Costa, na manhã de domingo, em Guara­puava, a Secretaria de Esportes do município optou pelo silêncio até que as investigações do caso sejam concluídas.

O episódio ocorreu na noite de sábado, no ginásio municipal de esportes Joaquim Prestes. Nos primeiros minutos de jogo, disputado entre as equipes do Atlético Deportivo e Palmeiras /Jundiaí (SP), o atleta, de 23 anos, que defendia a equipe local, deu um “carrinho” e foi atingido na coxa direita por um pedaço de madeira que se desprendeu do piso da quadra.

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Lamentação

“É inacreditável”, diz médico

O médico anestesista Carlos Eduardo Consalter, lembrou que Robson Costa deu entrada no hospital consciente e que de imediato passou por uma cirurgia de quatro horas. No entanto, segundo o médico, a hemorragia era muito grande e o atleta não resistiu. “Até agora não consigo acreditar na situação em que o rapaz ficou. Eu nunca tinha visto algo parecido. É inacreditável o que ocorreu”, lastimou.

Companheiros de equipe do jogador e o dirigente do Clube Atlético Deportivo, Valter Liberato, viajaram até Foz do Iguaçu, local onde Robson foi sepultado na manhã de ontem.

Dias Lopes, presidente da Federação Paranaense de Futebol de Salão, já adiou as duas primeiras rodadas do Guarapuava no Campeonato Paranaense. No próximo sábado, no mesmo ginásio da tragédia do fim de semana, o clube iria receber o Paraná Clube. A partida contra o Foz também foi cancelada pela entidade.

Com o choque, a lasca se dividiu em duas. Uma delas, com cerca de 10 centímetros, alojou-se na coxa e a outra, com aproximadamente 45 centímetros de comprimento, entrou próximo à virilha do jogador, desviou a bacia e perfurou uma artéria e entrou até o intestino do atleta.

Socorrido pelo corpo de bombeiros, a vítima foi levada consciente ao hospital São Vicente de Paulo, que fica a poucas quadras do ginásio. Uma equipe composta por dois cirurgiões e um anestesista, além de um grupo de enfermeiros, cuidou do ferido, mas, devido à hemorragia intensa, ele não resistiu.

A rodada do campeonato de futsal, que comemorava os 200 anos de Guarapuava, foi cancelada prontamente. No domingo, peritos estiveram no local e na ocasião, segundo a delegada que conduz as investigações, Maria Nysa Moreira Nannini, “dificilmente alguém poderia ser responsabilizado criminalmente”. Porém, prosseguindo com as investigações na tarde de ontem, ela relatou que “ainda é muito cedo para se dizer o que de fato aconteceu e apontar de quem é a culpa”.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Nannini reiterou que estão sendo feitas várias análises no local, bem como pesquisas para saber a real situação da quadra, se a manutenção desta foi feita de forma correta – assim como se haveria responsabilidade dos organizadores do evento esportivo.

“A culpa do agente, no caso, precisa ser uma culpa consciente, quando ele age com negligência, imperícia, imprudência, o indivíduo tem de saber que aquele ato ocasionaria algo maléfico a alguém. O que não é o caso de todas as análises que fizemos até agora. Porém, não podemos descartar nenhuma hipótese até que as investigações estejam concluídas”, discorreu. Ela, porém, não disse qual o prazo para as investigações terminarem.

Procurada, a secretaria de esportes de Guarapuava, através de uma funcionária que disse se chamar Silmara, informou que o caso estava com a procuradoria do município e que não estava autorizada a falar sobre o assunto. Em conversa com assessores de comunicação da prefeitura, a reportagem foi informada de que a procuradoria não daria entrevistas.

Em Foz do Iguaçu, onde Robson foi enterrado na manhã de ontem, Santa Marli Costa, 51 anos, mãe do atleta, relatou que conversou com o filho pouco antes de ocorrer a tragédia. “Eu sempre falava com ele antes dos jogos, para abençoá-lo. Era um hábito que a gente tinha”, contou. “Liguei pra desejar boa sorte e disse: ‘Te amo, filho’. Aí, ele disse: ‘Também amo muito você, mãe’. Depois, disse que precisava desligar porque o jogo iria começar. É uma das lembranças que eu vou guardar dele.”

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Fertilidade Póstuma

 

A grama rasga a terra,

o coração também se parte, em momentos.

A vida segue o curso, com tropeços,

mas segue, sem se importar com nada,

sem ligar até mesmo para a morte.

 

O jardim sai das pragas,

a terra dá lugar à beleza,

o que morreu, vira adubo,

a vida segue, fertilizada pela morte...

 

Tudo é necessário,

tudo faz parte de um conjunto,

ser feliz, é parte da existência,

florir e sorrir, são complementos,

é a mais pura perpetuação do belo,

do que realmente vale.

 

Amar sem medida,

é o resultado de todo um conjunto,

amar, sem se importar com pudor,

com regras, com defeitos,

faz do ser o mais belo, o mais perfeito,

mesmo em suas piores imperfeições...

 

As pregas no jardim sempre irão existir,

mas há que se saber,

que quando se arranca a praga,

a terra fica fofa, macia, auxiliando a planta;

no entanto, até as pragas são necessárias

para que haja felicidade...

 

Jossan Karsten

Gratificação

 

Minhas mãos ardem por causa dos calos,

mas estou muito feliz,

refiz meu jardim,

troquei a grama,

pus terra em tudo,

fiz uma verdadeira bagunça,

mas tudo está pronto,

tudo está muito bonito,

esperando o inverno

para adormecer e depois crescer com vontade,

no próximo verão.

 

A partir de uma boa muda,

tudo fica mais fácil,

fiz assim,

não poupei esforços,

comprei a melhor grama que encontrei,

cavei, rastelei, molhei e plantei,

tudo com minhas mãos,

a jardinagem é uma poesia,

sentir o cheiro da terra, é uma poesia,

a vida é a verdadeira poesia.

 

Tudo o que fiz hoje,

foi pensando na renovação.

Tem momentos em que é preciso trocar a grama,

há instantes em que mexer no que está decadente,

com a intenção de tapear as coisas,

é tornar tudo ainda pior.

É preciso mudar, mudar sempre,

buscar alternativas, ideias e rumos

para ser feliz...

 

Hoje não mudei só o jardim,

renovei-me também,

o suor que escorreu pelo meu rosto,

era como algo ruim sendo trocado por coisas boas,

e virão coisas boas,

eu sei disso, eu acredito nisso,

eu sou essa crença,

sou feito de poesias...

 

Jossan Karsten

 

Fagulhas

 

Relâmpagos chegam até mim,

são lembranças que vêm em fleches,

em feixes de luzes, em fagulhas,

mas que, vão-se em momentos, elas somem.

 

Ficam resquícios,

pedaços de lembranças apenas,

visões, imaginações, nada mais;

são só relâmpagos mesmo,

momentos muito pequenos,

mas que provocam estragos.

 

Tento não levar em conta,

nem mesmo os relâmpagos,

mas as lembranças que chegam sorrateiras,

e, com fagulhas minúsculas,

conseguem movimentar toda uma vida,

mexem com os sentimentos mais loucos,

aqueles que há muito estavam esquecidos...

 

Jossan Karsten

Alencar

 

Alencar se chateava com tudo e com todos. Na escola, era a pessoa mais ranzinza que se possa imaginar. Em casa, Alencar não podia nem olhar para os dois irmãos mais novos (Márcia de doze anos e Jacob de treze). Era o mais velho dos irmãos, mas sentia-se completamente rejeitado. Alencar tinha dezesseis anos.

            O menino que perdera o pai aos sete anos, precisou levar nas costas o peso de ser o irmão mais velho e, por conseguinte, o homem da casa. Sua mãe, aos olhos do menino, só tinha atenção aos irmãos mais novos. Alencar sofria com isso e tudo atribuía à morte do pai. “Eu nunca tive tempo de ser criança”, pensava. “Meu pai não podia ter feito isso comigo”, prosseguia em seus devaneios. O pai de Alencar tinha morrido em um acidente de trabalho. Os cabos de uma carga de tora se romperam e amadeira caiu sobre o homem que era operador de carregadeira. Como a máquina não tinha proteção, o pai de Alencar foi esmagado.

            Na escola, Alencar se atinha aos livros e cadernos. Praticar algum esporte, era impossível. Alencar era sozinho. Psicólogos, pedagogos e professores já haviam tentado de tudo, mas impossível, o garoto era um poço de solidão e de amargura.

            A notícia arrasadora chegou ao meio dia de uma sexta-feira. No instante em que a maioria dos alunos se preparava para curtir o final de semana, Alencar foi chamado às pressas na sala da direção. Sua mãe tinha sofrido um infarto e ele precisava cuidar das coisas e, principalmente, acalentar os irmãos. O chão pareceu fugir dos pés de Alencar. Justamente ele que se sentia sozinho e abandonado precisava agora cuidar dos outros. Era muita ironia. “É o fim para mim”, pensou.

            Pegou os irmãos em suas respectivas salas e os levou para casa. Repentinamente, Alencar não sentia mais aquele rancor, mas sim, uma necessidade de cuidar daquelas duas criaturas, desamparadas e amedrontadas pela situação. Foi para casa e preparou o almoço dos irmãos. Não comeu, mas lavou os pratos. Em seguida, pediu para que os dois se comportassem em casa e rumou para o hospital. Lá chegando, foi informado de que sua mãe estava na UTI. Subiu as escadas do hospital público correndo. Arfando, tocou a campainha e de pronto, foi atendido por uma enfermeira que segurou em suas mãos e disse que a médica queria lhe falar. Alencar sentiu medo, tontura, mas ao contrário do que houve na escola e em outras épocas, não sentiu rancor. A médica, uma oriental com aparência serena, explicou-lhe que sua mãe não tinha resistido. Alencar tremeu, chorou por dentro, mas demonstrou coragem.

            Sem ajuda de ninguém, tratou de todos os preparativos, e enfrentou a parte mais difícil, contar para seus irmãos. A tristeza tomou conta de todos na casa, mas Alencar sentia que não podia fraquejar. Ele tinha que conduzir sua gente, precisava manter seu sangue, sua família.

            Dias depois, mexendo nos pertences da mãe, Alencar descobriu uma carta endereçada a ele, onde a mãe falava de sua doença e o encorajava. Em um dos trechos da carta, ela explicava que não sentia desprezo para com Alencar, ao contrário, agia daquela forma, como uma maneira de preparar o rapaz para o inevitável. Alencar chorou. Suas lágrimas eram de tristeza sim, mas ele também chorava como uma forma de desabafo e sentia-se feliz por ter tido a certeza de que sua mãe nunca o havia desprezado.

            Tomou conta dos irmãos como se fosse um pai. Os estudos jamais foram deixados de lado. No entanto, na escola ou em qualquer outro lugar, Alencar não parecia a pessoa de antes. Sua amargura deu lugar à alegria e à felicidade.

 

            Jossan Karsten

 

             

 

Um beijo de despedida

Ela só queria um beijo,

não um beijo qualquer,

mas sim, um beijo sincero;

ela queria se despedir deste mundo

e entrar para a história,

ela só queria paz,

e conseguiu.

 

Olho para trás e sinto que a vida se foi,

mas fico feliz também, porque deixou seu rastro,

um rastro de saudade,

de tristeza também,

mas nada foi em vão,

tudo está seguindo seu caminho...

 

Os sonhos, esses não devem morrer nunca,

eles são a chave que abrem as portas,

até mesmo as portas imaginárias,

os sonhos são a verdade, a beleza,

o amor; os sonhos, são tudo,

na vida e na morte...

 

Jossan Karsten

Antonio

 

Antonio era só vontade de trabalhar. Seu corpo inteiro parecia ter sido feito para o serviço. Serviço braçal, é bom que se saiba. Mas Antonio, ao contrário de muitos, não queria provar nenhuma macheza com seu trabalho, na verdade, mesmo ele não se dando conta, seu trabalho era poético, quase uma religião.

Antonio abria valas para uma empreiteira de saneamento e aquilo para ele, era tudo. Dois filhos pequenos e a mulher, era o que tinha restado da família de Antonio. Os irmãos, que eram muitos, há muito não se tinha notícias. Pais, também não tinha mais, mas tinha sua família e isso era sinônimo de alegria, de prazer, de bem-aventurança para o homem que trazia a poesia incrustada em seus músculos.

            Antonio tinha passado por privações. Sem instruções escolares e com a mecanização da fazenda onde trabalhava, o pai de família ficou desempregado, desamparado, mas nunca desolado. A mulher, Rosa, era a flor que enternece qualquer um e nunca deixou que  Antonio sucumbisse. Os filhos, mesmo nas piores dificuldades, nunca duvidaram do amor dos pais, o que funcionava com um tônico, uma injeção de ânimo, tanto para Antonio quanto para Rosa.

            No dia em que Antonio conseguiu o emprego, estava chovendo. Ele tinha saído cedo para procurar trabalho e sentiu a brisa da manhã que antecedia a chuva invadir-lhe os pulmões. Antonio sorriu. Mesmo com a barriga vazia e sabendo que quase nada restava em casa para a mulher e os filhos, Antonio tinha, no fundo de seu coração, a certeza de que naquele dia, encontraria um trabalho. E  foi o que aconteceu.

Passando pela estrada, Antonio viu um grupo de homens que discutia. Os homens falavam alto e gesticulavam. A palavra chave que fez com que Antonio parasse, foi “trabalho”. “Temos que encontrar alguém que realmente queira fazer este trabalho”, disse um dos homens, que trajava uma camisa jeans e usava um capacete branco na cabeça. Sem medo e sem muito pensar, Antonio aproximou-se do pequeno grupo que pelo que tudo indicava, era composto de técnicos e falou: “Eu estou precisando de trabalho, vocês têm um trabalho para mim?” O homem de capacete branco sorriu, olhou para Antonio e disse: “Você nos caiu do céu, como a chuva que vem aí. Estamos precisando de alguém que tope um trabalho pesado. Pagamos bem. Precisamos fazer esta vala de alguns quilômetros e, na maioria dos lugares, não podemos usar máquinas por causa do terreno. Mas até agora, não encontramos ninguém com vontade suficiente para topar este desafio”, falou o homem com muitos gestos de mão e piscando os olhos sem parar. “Pois se o senhor precisa de alguém com força e vontade, então encontrou”, falou Antonio com um sorriso largo no rosto. “Tem carteira de trabalho aí com você?”, perguntou o homem de capacete.

            No instante em que Antonio estendia o documento ao homem que pouco tempo depois ficou sabendo se tratar do engenheiro responsável pela obra de saneamento, uma trovoada sinalizou o céu e uma chuva intensa começou a cair. Antonio era só sorriso, seu coração disparava no peito e o mundo parecia ter sido criado especialmente para ele.

            Naquele dia mesmo, Antonio começou a trabalhar. Cavava com vontade. A cada movimento de picareta, ou da pá, era para ele motivo de orgulho. O trabalho significava comida na mesa, dignidade familiar e, principalmente, amor para todos. Antonio sorria. Gotas de suor caíam em seus olhos provocando ardência, mas mesmo assim, a alegria era tanta que Antonio não se importava com o desconforto. Em casa, Rosa o esperava, os filhos iam para a escola e, já na primeira semana de trabalho, Antonio ficou sabendo que teria trabalho por muito tempo. Todos da empresa gostavam dele e ele amava o trabalho. Antonio só queria sonhar e viver o sonho, nada mais lhe interessava, sua vida era mais que uma vida de trabalho, a vida de Antonio era a mais pura e verdadeira poesia, uma poesia que se escreve com músculos e suor.

 

Jossan Karsten

 

 

 

 

Filete de vida

Filetes de vida que se esvaem,

nuvem que chega nos olhos,

morte que se aproxima,

desejo de voltar atrás,

nada, além de um horizonte cinzento,

somente o infinito,

no filete de vida que se esvai.

 

Jossan Karsten

 

Tudo novo

 

Agora sou publicitário formado. Recebi minha última nota ontem. Até que enfim, uma nova fase em minha vida. Obrigado Deus e a todos que me suportaram neste período. Obrigado aos colegas e amigos. Obrigado às pessoas que conheci e que passaram pela minha vida. Hoje, apesar do final do ano, começo tudo de novo. Saio de férias agora, mas para o ano que vem, tem muitas novidades.

Desejo a todos os meus leitores e amigos, desde já, um feliz natal e um vitorioso ano novo. Quero que tudo seja perfeito no ano que vem e que, como sempre, o amor floresça e renasça nos corações, nas mentes e nas atitudes das pessoas. Grande beijo no coração de todos e os aguardo nessa nova empreitada.

 

Jossan Karsten

Relógio Ponto

 

Em todos os locais de trabalho, encontramos peculiaridades, características que o fazem diferentes dos demais. É como se houvesse pequenos mundos nesses locais (já escrevi até um livro falando disso). Mas o caso agora, é que passei a observar um lugar muito movimentado aqui, que é o relógio ponto. Todos nós somos obrigados (por lei) a bater o pontinho todos os dias. Quando esquecemos, há desconto de salário, de modo que ninguém ousa uma façanha destas. O que acontece é o contrário. Fumantes, principalmente eles, que perdem cerca de quatro horas por dia no pé da escada puxando seus fuminhos, resolvem, no final da tarde, dar uma esticada no vício e, por conseguinte, esticam o tempo de permanência na casa, gerando horas extras. Mas esquecer de meter o dedo no ponto, isso jamais.

            Pois muito bem. Passei a observar o relógio ponto como um local capaz de unir e de separar pessoas. Todos os dias presencio discussões ali. Fico calado, mas ouvindo tudo com a sensibilidade de um afinador de piano. E saibam que ouço cada coisa! Por exemplo, já ouvi um homem magrinho e que trabalha na jardinagem choramingando e dizendo a todos que ele agora estava sem lugar para morar. “Ela tocou-me de casa. Agora estou sem lugar para ficar. Tudo isso só porque trepei com a vizinha. Foi besteira, a vizinha era gorda e quase me sufocou, mas ela não quer nem saber, me tocou de casa e agora estou sem lugar para ficar. Talvez eu vá para a rodoviária ou para o albergue”, disse limpando as lágrimas. Um velhinho magrinho que mais parece uma chaminé de tanto que fuma e que dizem que adora um garotão veio em seu socorro: “Jamais vou deixar você ficar na rodoviária, meu amigo. Minha casa é pequena, mas sempre tem um lugarzinho sobrando para quem precisa. Vamos para lá até que tudo se resolva. E não se preocupe se nunca se resolver teu problema, afinal, sou um velho solitário”, disse, deu uma baforada e riu gostoso. O recém separado ficou sem jeito diante do olhar de todos. Mas, segundo o que fiquei sabendo, ele passou uma longa temporada na casa do velhinho.

            Tem também aqueles puxa-sacos que querem aparecer para todos aqui. Tem um gordo (que nunca bate o ponto), que está todos os dias ao lado da porta. Disseram-me no café, que ele gosta de bater em pessoas em tempos de política. Esse cara anda sempre vestido com uma camiseta com estampa de santos e se diz líder religioso. No entanto, já o vi muitas vezes falando alto em seu celular último modelo e que só terminará de pagar daqui a cinco anos, e pedindo “umas novinhas e bonitinhas para fazermos umas festas na beira do rio”. Depois do telefone desligado e lambendo os beiços como um cachaço, ele conversa com propriedade sobre Santo Agostinho e a Legião de Maria. Há também outro gordo, manco e metido. Este também não bate ponto, mas parece um coronel, principalmente perto de estagiários. Também me disseram que ele é outro puxa-saco e é violento. Anda num carro caindo aos pedaços e quase sempre está armado. Tenho nojo da cara dele e evito o encontrar no corredor. Outro dia ele falou (sempre perto do relógio ponto) que: “Ela é muito burra. Eu pedi para que fizesse o concurso, pois no concurso a gente tem como ajudar, mas sem concurso fica difícil”.

            Não posso esquecer de maneira nenhuma, das mulheres que vão pegar macho lá na porta. A maioria é gorda e com as tetas caídas, não sei por que. Tem uma de cabelinho enrolados, ela é morena, mas não chega a ser negra. Seguidamente ela está lá na portaria ajeitando a calcinha que está sempre atolada no rego. Ela faz uma operação resgate e rebola como uma doida. Dá até medo. O problema é que tem uma barriga maior que a bunda, mas o sexo é tão grande que mais parece um saco. Ela é realmente volumosa.

            Outra com uma bunda enorme e gorducha, também bate ponto todos os dias na porta, ao lado do relógio. Esta é branca e usa uns óculos diferentes. Tenho sérias suspeitas de que ela curte mulher. Sempre que pode, está tocando em uma. Geralmente ela está perto de estagiárias. E como se proliferam estagiários por aqui. Meu Deus! Todos os dias é estagiários entrando. A seleção, pelo que fiquei sabendo, pelo menos das mulheres, é feita pelo gordo que anda armado. Agora, qual o critério que ele usa para escolher as futuras profissionais, eu não sei.

            Não posso esquecer, de maneira alguma, das senhoras que se vestem de meninas. Elas, em sua maioria, têm cargos de confiança. Elas atacam em todos os setores. Dão pitecos na limpeza do ambiente (que por sinal é horrível) e não deixam de analisar os filmes institucionais que são feitos por aqui. Mesmo que os comentários não passem de: “Esta luz ficou... não sei...” Ou: “Como ela mexe legal, né?”. Tenho que me conter para não rir na cara delas.

            Jamais esqueço das bichas. Jesus, como isso aqui se encheu de bichas! Não sou preconceituoso, de maneira nenhuma, pois afinal, cada um dá o que tem como dizem por aqui. Mas eu tenho que admirar a coragem de tanta gente se assumindo ao mesmo tempo. Quando é época de costurar os figurinos, a muvuca está feita. Gente correndo e gritando em histeria. “Amiga, pegue aquela fita, por favor!” “Meu bem, estou tendo um ataque aqui, pois esse tecido não espicha. Ai! Preciso dar hoje, pois do contrário, amanhã não tem mão de obra. Não consigo fazer nada quando estou com tesão”, dizem isso e caem na gargalhada. Estou na sala ao lado e não consigo ficar sem rir também.

            Também preciso falar dos secretários. Nossa! Esses caras adoram uma mídia. Sempre que há uma entrevista, há um secretário lá, como um papagaio de pirata. Tem um que anda até com uma caixinha de maquiagem. Mesmo nas entrevistas de rádio, ele se arruma. Não sei o porquê, mas ele faz isso sempre. É mais uma síndrome de viadagem. Pelo menos é assim que eu classifico.

            Estava quase esquecendo de falar das tias do café e da limpeza. São mulheres muito simpáticas, pelo menos comigo, mas o que reclamam da vida, é impressionante! Um dia, uma está com dor nas costas, outro dia, a outra está atacada das hemorróidas e, quase sempre nas segundas-feiras, há uma que teve um acidente ou aconteceu um acidente com alguém da família. Geralmente alguém muito próximo está com câncer ou com as pernas quebradas ou teve um ataque cardíaco. Elas são impressionantes e somam à minha carta de personagens doidos que estão por aí.

            De modos que, o relógio ponto é um lugar onde todos se encontram e falam de todos. Acho até democrático isso. Não fico muito ali, mas em minhas passagens, sempre aprendo alguma coisa. Sei que vou sentir saudades desses malucos daqui, mas sinto que é hora de me retirar. Tenho que fazer coisas novas, pois sei que não tenho talento algum para ficar muito tempo, anos a fio ao lado de um relógio ponto. Vou nessa, caros amigos e desejo a todos, sucesso em tudo o que decidirem fazer com suas vidas. No entanto, é sempre bom lembrar que enquanto se fica batendo ponto e se preocupando com horas extras, o mundo gira e a vida passa.

 

Jossan Karsten

     

           

Há Amor

 

Marcamos bobeira,

fazemos de tudo,

mas retornamos ao amor,

vivemos em função do amor,

somos o amor.

 

Buscamos de todos os lados,

mas o amor, em muitos momentos,

está aqui, ao nosso lado,

querendo uma chance,

pronto a atuar.

 

O amor está em todos os lugares,

ele até se expõe,

mas, na maioria das vezes,

passa despercebido,

ninguém o vê,

pelo simples fato de que o estão sentindo.

 

O amor sentido faz com que esqueçamos de tudo,

no entanto, o amor desprezado, nos torna azedos,

amargos, uma coisa que pode ser tudo,

menos bela.

 

Quero o amor em sua totalidade,

não esse amor por interesse,

quero o amor além do sexo

e acredito que todos devem cultuá-lo.

 

Volto a citar que o amor está aqui,

basta que olhemos para o lado,

bastando apenas que o deixemos entrar,

pela janela, pela porta, pelo coração.

Não há necessidade de datas específicas,

não há dia pré-estipulado para amar,

o que há, são as oportunidades para que o amor nasça,

floresça, e brilhe em sua totalidade...

 

Jossan Karsten

Bobo Feliz

 

Tem dia que parece ser só mais um,

mas a intensidade dele é tanta,

que acaba por se tornar um dia especial,

hoje é um dia especial,

tudo está perfeito e nada pode mudar isso.

 

Há momentos na vida da gente,

em que um dia assim parece impossível,

e hoje, olhando com olhar de alguém feliz,

o contrário é que parece impossível.

 

Meus livros estão vendendo bem,

o sol brilha lá fora,

aqui dentro, em meu pequeno escritório,

há luz, há paz, há alegria,

embora solitárias, mas há.

 

Todos da casa viajaram,

mas eu fiquei.

Eu quero ficar e curtir,

não estou sozinho,

estou em um dia perfeito,

estou comigo mesmo,

faço poesias e rio sozinho,

como um bobo, mas um bobo feliz.

 

Jossan Karsten

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Nova Era

 

Até agora ainda não estou acreditando que tudo acabou. Meu corpo todo dói, minhas pernas parecem que não são minhas e minha cabeça pesa muito. Mas acabou. Terminei o curso de Publicidade e Propaganda depois de longos seis anos entre mudanças de cursos e matérias refeitas. É uma eternidade, principalmente para mim que não tenho o dom da espera.

            Ontem, depois de muito choro de quase todo mundo, demos por encerradas as apresentações dos projetos. Claro que ainda temos que voltar na faculdade para ajustar uma coisa ou outra, mas não será mais a mesma coisa. Agora, agiremos como profissionais (assim espero) e não conversaremos com os professores e com os funcionários da instituição com aquele costumeiro ar de submissão. É realmente um novo tempo, uma nova era.

            Não vou dizer que não sinto saudades, mas hoje, principalmente neste momento em que escrevo, é como se uns cem quilos tivessem saído de minhas costas. Durante este período, mas principalmente ao longo desses últimos quatro anos, deixei de viver. Tenho ficado muito pouco com minha filha e os amigos (que são poucos) eu quase os esqueci. Não tinha tempo para nada. Finais de semana, era na casa de colegas fazendo trabalho de faculdade, criando campanhas, programando coisas e a vida correndo lá fora, linda, brilhante, bela. Mas acabou, é tudo o que tenho a dizer.

            Até para cuidar dos meus livros, eu tinha que roubar tempo, tempo este que a faculdade me roubou. Confesso, no entanto, que não me arrependo, mas se soubesse que seria tão complicado assim, acho que continuaria formado em nada. É muito chato seguir todas as regras impostas pelo ensino e que em momento algum, um professor sequer seguiu. Aprendemos a trabalhar trabalhando, só podemos sentir a vida, vivendo.

            Como optei por não fazer festa de formatura (eu não suporto mais pagar tanta coisa) provavelmente não veja mais os colegas reunidos em um único local. Fico triste por isso, mas entendo que a vida de cada um deve seguir seu rumo, sem que haja interferência desta ou daquela pessoa. Somo livres, na medida do possível. Na medida do possível também, nos tornamos felizes e isto é o que realmente importa.

            Coisas ruins aconteceram nas salas de aula. Tirando as brigas de colegas, também houve mortes nas famílias, tanto de professores como de colegas e isso é muito chato. Mas, por outro lado, amores se fizeram e se firmaram, casamentos aconteceram e crianças nasceram. Eu vi tudo, porque estava lá. Nesse caso, foi ótimo estar lá. Sim, pois para um escritor, a vida é a pedra fundamental para seu trabalho e lá, em minha pequena sala de aula, aprendi muito da vida. Quase nada de matérias, mas de vida sim. Aprendi que nem tudo é conforme pensamos e para todos os problemas, por piores que sejam, há sempre uma solução, até mesmo para a morte, pois quando uma pessoa se vai, geralmente nasce outra na mesma família ou em família de parente e isto é a perpetuação, o sinal explícito de que Deus existe e está em todos os lugares.

            Falando de mim, sinto que pela primeira vez chegou meu momento de viver intensamente. Eu tinha sempre essa coisa que me preocupava. Ter um curso superior era como uma pedra a me atrapalhar. Não em questões de trabalho, mas sim em questões de reflexões pessoais mesmo. Agora tudo está mais leve para mim. Sinto que cumpri minha meta. Eu nunca costumo traçar metas, mas neste caso, tracei. Cumpri minha parte e agora, posso me dedicar de corpo e alma ao que mais gosto, que são as palavras. Escrever para mim, é uma religião, um ofício, é minha vida traduzida em palavras.

            Amigos e ex-colegas, vou ficando por aqui com este texto que confesso é muito chato, mas que precisava ser escrito. Estarei bem, sem compromissos, mas muito bem. Quando quiserem me encontrar, estarei por aí, pois a distância nunca foi algo que me prendesse a nada. Afinal, já cumpri minha pena de não me distanciar das coisas durante os últimos quatro anos.

            Confesso que me sinto um pouco envergonhado por ter chorado, esperneado e gritado em muitos momentos, mas agora, noto que tudo se justifica. Não carrego mágoas, não guardo rancor, só quero viver, só quero sorrir e ser feliz.

 

Jossan Karsten

Vírus

 

Ela só quer sexo, sem compromisso,

ela só quer gozar, gozar e gozar,

ele, por sua vez, prefere o amor,

ela não sabe mais nada, mas não quer sofrer...

 

Quando está por cima ela domina,

dá tudo de si e diz que o ama,

ele goza e ela também,

a seiva lhe escorre pela coxa,

ele está molhado,

mas ele sabe que não há amor,

que não verdade por parte dela...

 

Ela quer sair, mas ele a prende,

ela fica chateada e dispara a resmungar,

mas ele usa de sua força e a puxa para si,

ela se abre toda e novamente se entrega,

ele a penetra e ela goza,

ela goza e diz que o ama, sem verdade, mas diz.

Ela chora motivada pelo desejo,

as lágrimas também são gozo,

êxtase, algo amenizador que faz com que ela ame,

ao menos por um minuto, ela ame...

 

Ele está repleto de amor e dorme,

ela chora, ela não quer amar,

veste a roupa e sai, não olha para trás,

ela está odiando tudo,

ela detesta o amor,

mas ele é persistente e se instalou em seu corpo

como um vírus,

ela o combate, mas o vírus é muito mais forte,

ele está ali e vai matá-la,

a morte não é nada na circunstância em que está,

mas o amor é muito, o amor não merece seu corpo,

ela não merece o amor...

 

Jossan Karsten

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