Filete de vida

Filetes de vida que se esvaem,

nuvem que chega nos olhos,

morte que se aproxima,

desejo de voltar atrás,

nada, além de um horizonte cinzento,

somente o infinito,

no filete de vida que se esvai.

 

Jossan Karsten

 

Tudo novo

 

Agora sou publicitário formado. Recebi minha última nota ontem. Até que enfim, uma nova fase em minha vida. Obrigado Deus e a todos que me suportaram neste período. Obrigado aos colegas e amigos. Obrigado às pessoas que conheci e que passaram pela minha vida. Hoje, apesar do final do ano, começo tudo de novo. Saio de férias agora, mas para o ano que vem, tem muitas novidades.

Desejo a todos os meus leitores e amigos, desde já, um feliz natal e um vitorioso ano novo. Quero que tudo seja perfeito no ano que vem e que, como sempre, o amor floresça e renasça nos corações, nas mentes e nas atitudes das pessoas. Grande beijo no coração de todos e os aguardo nessa nova empreitada.

 

Jossan Karsten

Relógio Ponto

 

Em todos os locais de trabalho, encontramos peculiaridades, características que o fazem diferentes dos demais. É como se houvesse pequenos mundos nesses locais (já escrevi até um livro falando disso). Mas o caso agora, é que passei a observar um lugar muito movimentado aqui, que é o relógio ponto. Todos nós somos obrigados (por lei) a bater o pontinho todos os dias. Quando esquecemos, há desconto de salário, de modo que ninguém ousa uma façanha destas. O que acontece é o contrário. Fumantes, principalmente eles, que perdem cerca de quatro horas por dia no pé da escada puxando seus fuminhos, resolvem, no final da tarde, dar uma esticada no vício e, por conseguinte, esticam o tempo de permanência na casa, gerando horas extras. Mas esquecer de meter o dedo no ponto, isso jamais.

            Pois muito bem. Passei a observar o relógio ponto como um local capaz de unir e de separar pessoas. Todos os dias presencio discussões ali. Fico calado, mas ouvindo tudo com a sensibilidade de um afinador de piano. E saibam que ouço cada coisa! Por exemplo, já ouvi um homem magrinho e que trabalha na jardinagem choramingando e dizendo a todos que ele agora estava sem lugar para morar. “Ela tocou-me de casa. Agora estou sem lugar para ficar. Tudo isso só porque trepei com a vizinha. Foi besteira, a vizinha era gorda e quase me sufocou, mas ela não quer nem saber, me tocou de casa e agora estou sem lugar para ficar. Talvez eu vá para a rodoviária ou para o albergue”, disse limpando as lágrimas. Um velhinho magrinho que mais parece uma chaminé de tanto que fuma e que dizem que adora um garotão veio em seu socorro: “Jamais vou deixar você ficar na rodoviária, meu amigo. Minha casa é pequena, mas sempre tem um lugarzinho sobrando para quem precisa. Vamos para lá até que tudo se resolva. E não se preocupe se nunca se resolver teu problema, afinal, sou um velho solitário”, disse, deu uma baforada e riu gostoso. O recém separado ficou sem jeito diante do olhar de todos. Mas, segundo o que fiquei sabendo, ele passou uma longa temporada na casa do velhinho.

            Tem também aqueles puxa-sacos que querem aparecer para todos aqui. Tem um gordo (que nunca bate o ponto), que está todos os dias ao lado da porta. Disseram-me no café, que ele gosta de bater em pessoas em tempos de política. Esse cara anda sempre vestido com uma camiseta com estampa de santos e se diz líder religioso. No entanto, já o vi muitas vezes falando alto em seu celular último modelo e que só terminará de pagar daqui a cinco anos, e pedindo “umas novinhas e bonitinhas para fazermos umas festas na beira do rio”. Depois do telefone desligado e lambendo os beiços como um cachaço, ele conversa com propriedade sobre Santo Agostinho e a Legião de Maria. Há também outro gordo, manco e metido. Este também não bate ponto, mas parece um coronel, principalmente perto de estagiários. Também me disseram que ele é outro puxa-saco e é violento. Anda num carro caindo aos pedaços e quase sempre está armado. Tenho nojo da cara dele e evito o encontrar no corredor. Outro dia ele falou (sempre perto do relógio ponto) que: “Ela é muito burra. Eu pedi para que fizesse o concurso, pois no concurso a gente tem como ajudar, mas sem concurso fica difícil”.

            Não posso esquecer de maneira nenhuma, das mulheres que vão pegar macho lá na porta. A maioria é gorda e com as tetas caídas, não sei por que. Tem uma de cabelinho enrolados, ela é morena, mas não chega a ser negra. Seguidamente ela está lá na portaria ajeitando a calcinha que está sempre atolada no rego. Ela faz uma operação resgate e rebola como uma doida. Dá até medo. O problema é que tem uma barriga maior que a bunda, mas o sexo é tão grande que mais parece um saco. Ela é realmente volumosa.

            Outra com uma bunda enorme e gorducha, também bate ponto todos os dias na porta, ao lado do relógio. Esta é branca e usa uns óculos diferentes. Tenho sérias suspeitas de que ela curte mulher. Sempre que pode, está tocando em uma. Geralmente ela está perto de estagiárias. E como se proliferam estagiários por aqui. Meu Deus! Todos os dias é estagiários entrando. A seleção, pelo que fiquei sabendo, pelo menos das mulheres, é feita pelo gordo que anda armado. Agora, qual o critério que ele usa para escolher as futuras profissionais, eu não sei.

            Não posso esquecer, de maneira alguma, das senhoras que se vestem de meninas. Elas, em sua maioria, têm cargos de confiança. Elas atacam em todos os setores. Dão pitecos na limpeza do ambiente (que por sinal é horrível) e não deixam de analisar os filmes institucionais que são feitos por aqui. Mesmo que os comentários não passem de: “Esta luz ficou... não sei...” Ou: “Como ela mexe legal, né?”. Tenho que me conter para não rir na cara delas.

            Jamais esqueço das bichas. Jesus, como isso aqui se encheu de bichas! Não sou preconceituoso, de maneira nenhuma, pois afinal, cada um dá o que tem como dizem por aqui. Mas eu tenho que admirar a coragem de tanta gente se assumindo ao mesmo tempo. Quando é época de costurar os figurinos, a muvuca está feita. Gente correndo e gritando em histeria. “Amiga, pegue aquela fita, por favor!” “Meu bem, estou tendo um ataque aqui, pois esse tecido não espicha. Ai! Preciso dar hoje, pois do contrário, amanhã não tem mão de obra. Não consigo fazer nada quando estou com tesão”, dizem isso e caem na gargalhada. Estou na sala ao lado e não consigo ficar sem rir também.

            Também preciso falar dos secretários. Nossa! Esses caras adoram uma mídia. Sempre que há uma entrevista, há um secretário lá, como um papagaio de pirata. Tem um que anda até com uma caixinha de maquiagem. Mesmo nas entrevistas de rádio, ele se arruma. Não sei o porquê, mas ele faz isso sempre. É mais uma síndrome de viadagem. Pelo menos é assim que eu classifico.

            Estava quase esquecendo de falar das tias do café e da limpeza. São mulheres muito simpáticas, pelo menos comigo, mas o que reclamam da vida, é impressionante! Um dia, uma está com dor nas costas, outro dia, a outra está atacada das hemorróidas e, quase sempre nas segundas-feiras, há uma que teve um acidente ou aconteceu um acidente com alguém da família. Geralmente alguém muito próximo está com câncer ou com as pernas quebradas ou teve um ataque cardíaco. Elas são impressionantes e somam à minha carta de personagens doidos que estão por aí.

            De modos que, o relógio ponto é um lugar onde todos se encontram e falam de todos. Acho até democrático isso. Não fico muito ali, mas em minhas passagens, sempre aprendo alguma coisa. Sei que vou sentir saudades desses malucos daqui, mas sinto que é hora de me retirar. Tenho que fazer coisas novas, pois sei que não tenho talento algum para ficar muito tempo, anos a fio ao lado de um relógio ponto. Vou nessa, caros amigos e desejo a todos, sucesso em tudo o que decidirem fazer com suas vidas. No entanto, é sempre bom lembrar que enquanto se fica batendo ponto e se preocupando com horas extras, o mundo gira e a vida passa.

 

Jossan Karsten

     

           

Há Amor

 

Marcamos bobeira,

fazemos de tudo,

mas retornamos ao amor,

vivemos em função do amor,

somos o amor.

 

Buscamos de todos os lados,

mas o amor, em muitos momentos,

está aqui, ao nosso lado,

querendo uma chance,

pronto a atuar.

 

O amor está em todos os lugares,

ele até se expõe,

mas, na maioria das vezes,

passa despercebido,

ninguém o vê,

pelo simples fato de que o estão sentindo.

 

O amor sentido faz com que esqueçamos de tudo,

no entanto, o amor desprezado, nos torna azedos,

amargos, uma coisa que pode ser tudo,

menos bela.

 

Quero o amor em sua totalidade,

não esse amor por interesse,

quero o amor além do sexo

e acredito que todos devem cultuá-lo.

 

Volto a citar que o amor está aqui,

basta que olhemos para o lado,

bastando apenas que o deixemos entrar,

pela janela, pela porta, pelo coração.

Não há necessidade de datas específicas,

não há dia pré-estipulado para amar,

o que há, são as oportunidades para que o amor nasça,

floresça, e brilhe em sua totalidade...

 

Jossan Karsten

Bobo Feliz

 

Tem dia que parece ser só mais um,

mas a intensidade dele é tanta,

que acaba por se tornar um dia especial,

hoje é um dia especial,

tudo está perfeito e nada pode mudar isso.

 

Há momentos na vida da gente,

em que um dia assim parece impossível,

e hoje, olhando com olhar de alguém feliz,

o contrário é que parece impossível.

 

Meus livros estão vendendo bem,

o sol brilha lá fora,

aqui dentro, em meu pequeno escritório,

há luz, há paz, há alegria,

embora solitárias, mas há.

 

Todos da casa viajaram,

mas eu fiquei.

Eu quero ficar e curtir,

não estou sozinho,

estou em um dia perfeito,

estou comigo mesmo,

faço poesias e rio sozinho,

como um bobo, mas um bobo feliz.

 

Jossan Karsten

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Nova Era

 

Até agora ainda não estou acreditando que tudo acabou. Meu corpo todo dói, minhas pernas parecem que não são minhas e minha cabeça pesa muito. Mas acabou. Terminei o curso de Publicidade e Propaganda depois de longos seis anos entre mudanças de cursos e matérias refeitas. É uma eternidade, principalmente para mim que não tenho o dom da espera.

            Ontem, depois de muito choro de quase todo mundo, demos por encerradas as apresentações dos projetos. Claro que ainda temos que voltar na faculdade para ajustar uma coisa ou outra, mas não será mais a mesma coisa. Agora, agiremos como profissionais (assim espero) e não conversaremos com os professores e com os funcionários da instituição com aquele costumeiro ar de submissão. É realmente um novo tempo, uma nova era.

            Não vou dizer que não sinto saudades, mas hoje, principalmente neste momento em que escrevo, é como se uns cem quilos tivessem saído de minhas costas. Durante este período, mas principalmente ao longo desses últimos quatro anos, deixei de viver. Tenho ficado muito pouco com minha filha e os amigos (que são poucos) eu quase os esqueci. Não tinha tempo para nada. Finais de semana, era na casa de colegas fazendo trabalho de faculdade, criando campanhas, programando coisas e a vida correndo lá fora, linda, brilhante, bela. Mas acabou, é tudo o que tenho a dizer.

            Até para cuidar dos meus livros, eu tinha que roubar tempo, tempo este que a faculdade me roubou. Confesso, no entanto, que não me arrependo, mas se soubesse que seria tão complicado assim, acho que continuaria formado em nada. É muito chato seguir todas as regras impostas pelo ensino e que em momento algum, um professor sequer seguiu. Aprendemos a trabalhar trabalhando, só podemos sentir a vida, vivendo.

            Como optei por não fazer festa de formatura (eu não suporto mais pagar tanta coisa) provavelmente não veja mais os colegas reunidos em um único local. Fico triste por isso, mas entendo que a vida de cada um deve seguir seu rumo, sem que haja interferência desta ou daquela pessoa. Somo livres, na medida do possível. Na medida do possível também, nos tornamos felizes e isto é o que realmente importa.

            Coisas ruins aconteceram nas salas de aula. Tirando as brigas de colegas, também houve mortes nas famílias, tanto de professores como de colegas e isso é muito chato. Mas, por outro lado, amores se fizeram e se firmaram, casamentos aconteceram e crianças nasceram. Eu vi tudo, porque estava lá. Nesse caso, foi ótimo estar lá. Sim, pois para um escritor, a vida é a pedra fundamental para seu trabalho e lá, em minha pequena sala de aula, aprendi muito da vida. Quase nada de matérias, mas de vida sim. Aprendi que nem tudo é conforme pensamos e para todos os problemas, por piores que sejam, há sempre uma solução, até mesmo para a morte, pois quando uma pessoa se vai, geralmente nasce outra na mesma família ou em família de parente e isto é a perpetuação, o sinal explícito de que Deus existe e está em todos os lugares.

            Falando de mim, sinto que pela primeira vez chegou meu momento de viver intensamente. Eu tinha sempre essa coisa que me preocupava. Ter um curso superior era como uma pedra a me atrapalhar. Não em questões de trabalho, mas sim em questões de reflexões pessoais mesmo. Agora tudo está mais leve para mim. Sinto que cumpri minha meta. Eu nunca costumo traçar metas, mas neste caso, tracei. Cumpri minha parte e agora, posso me dedicar de corpo e alma ao que mais gosto, que são as palavras. Escrever para mim, é uma religião, um ofício, é minha vida traduzida em palavras.

            Amigos e ex-colegas, vou ficando por aqui com este texto que confesso é muito chato, mas que precisava ser escrito. Estarei bem, sem compromissos, mas muito bem. Quando quiserem me encontrar, estarei por aí, pois a distância nunca foi algo que me prendesse a nada. Afinal, já cumpri minha pena de não me distanciar das coisas durante os últimos quatro anos.

            Confesso que me sinto um pouco envergonhado por ter chorado, esperneado e gritado em muitos momentos, mas agora, noto que tudo se justifica. Não carrego mágoas, não guardo rancor, só quero viver, só quero sorrir e ser feliz.

 

Jossan Karsten

Vírus

 

Ela só quer sexo, sem compromisso,

ela só quer gozar, gozar e gozar,

ele, por sua vez, prefere o amor,

ela não sabe mais nada, mas não quer sofrer...

 

Quando está por cima ela domina,

dá tudo de si e diz que o ama,

ele goza e ela também,

a seiva lhe escorre pela coxa,

ele está molhado,

mas ele sabe que não há amor,

que não verdade por parte dela...

 

Ela quer sair, mas ele a prende,

ela fica chateada e dispara a resmungar,

mas ele usa de sua força e a puxa para si,

ela se abre toda e novamente se entrega,

ele a penetra e ela goza,

ela goza e diz que o ama, sem verdade, mas diz.

Ela chora motivada pelo desejo,

as lágrimas também são gozo,

êxtase, algo amenizador que faz com que ela ame,

ao menos por um minuto, ela ame...

 

Ele está repleto de amor e dorme,

ela chora, ela não quer amar,

veste a roupa e sai, não olha para trás,

ela está odiando tudo,

ela detesta o amor,

mas ele é persistente e se instalou em seu corpo

como um vírus,

ela o combate, mas o vírus é muito mais forte,

ele está ali e vai matá-la,

a morte não é nada na circunstância em que está,

mas o amor é muito, o amor não merece seu corpo,

ela não merece o amor...

 

Jossan Karsten

Sem curso superior

 

Aquela tinha sido uma turma de poucos desistentes na faculdade. Era o curso de Publicidade e Propaganda e, desde o primeiro dia de aula, muitos já queriam montar agências, outros se imaginavam donos de produtoras e outros ainda, queriam dominar o mundo, brincar de Deus nas horas vagas. Mas a faculdade era particular e a cada semestre, os sonhos se tornavam mais distantes. Muitos recorriam à velha e boa negociação até extrapolarem todos os limites. Outros, no entanto, partiam para as bolsas do governo ou financiamentos que em princípio pareciam fáceis de pagar, mas que depois de contratados ficavam impagáveis, de modo que, ao sair da faculdade, além do quase que certo desemprego, o formado ainda saía como inadimplente.

            A verdade é que a maioria se formou. Houve brigas até no dia da formatura, por causa do traje a ser usado e por causa da bebida a ser servida (alguns queriam bebidas sofisticadas, mas não tinham como pagar e muitos ainda não conseguiram aprender em quatro anos o que significava algo sofisticado). Mas no dia do evento, as juras de amor eterno foram as que prevaleceram.

            Criou-se então um clube dos formados em publicidade e propaganda. Todos os anos, eles se encontravam no mês de novembro, sim, porque dezembro era um mês destinado a coisas familiares e nada substitui a família. O encontro se dava em um bar, ao lado da faculdade, chamado Bar do Banha, recôndito de muitas conversas, brigas e decisões da turma. A cada encontro, novidades não tão boas surgiam. O desemprego ou o subemprego era a maior delas. O aumento no número de filhos e, por conseguinte o aumento da barriga tanto dos homens quanto das mulheres também era iminente.

            Na última vez que se encontraram, decidiram mudar. O Bar do Banha tinha ficado pequeno para tanto publicitário pobre e para tanta criança e cônjuges. Resolveu-se então, depois de muito contar moedas e de negociarem vários dias por telefone, fazer o evento em um restaurante fino, à beira do lago que embelezava a cidade. E lá se foram. Maridos, esposas e crianças, ah! como tinha criança naquele grupo. Uns choravam, outros cagavam e outros ainda não paravam de despetalar as flores que havia no local. Os manobradores do restaurante que também abrigava um hotel, já estavam dando o grupo ao diabo. Muitos nunca tinham visto de perto carros naquelas condições, quanto mais entrado em algum deles.

            O grupo, não dá para dizer que se acomodou, mas se ajeitou como pôde. Um rapaz alto, magro e de corpo atlético, trajando roupa de garçom, aproximou-se da mesa para anotar os pedidos. Assim que ele chega, o alvoroço foi intenso. “Nossa, é o Josué”, gritou um. “Puxa, que coisa, não”, falou uma mulher com os pneus saltando da calça jeans e com uma filha no colo. “Jesus, é nessa hora que eu agradeço a Deus por ter me formado”, ralhou outra mulher baixinha e gorda sentada do outro lado da mesa. Josué sorria.

            O alvoroço parecia não acabar mais. Todos queriam saber da vida de Josué que deixou a faculdade de publicidade e propaganda quando estava no segundo ano. Ele, que fazia bicos como garçom, alegou que não tinha mais como pagar o curso e decidiu trabalhar. O rapaz repetiu tudo isso de novo. “Eu precisava trabalhar na época e não tinha como pagar o curso. Depois, eu percebi que os publicitários não ganham tanto assim e também fiquei frustrado com os professores que ao menos para mim, não acrescentavam muita coisa. Então, meti a cara no mundo e hoje estou aqui, trabalhando”, disse o rapaz com um sorriso ainda maior, enquanto outros garçons também alegres tomavam conta do grupo sem nada dizer a Josué que se mostrava animado em reencontrar velhos colegas.

            “Imagine só, se você tivesse insistido um pouco mais, se tivesse feito um esforço, um financiamento, talvez, hoje você estaria aqui conosco e não servindo mesas”, desdenhou uma moça também gorda, de cabelos enrolados, casada com um grandalhão que mais parecia um carrasco de pena de morte. “Pois é, mas se eu tivesse me formado, aí vocês não teriam um garçom amigo para lhes servir. Tudo tem seu tempo”, rebateu Josué que enquanto conversava virou-se para o gerente que cochichava em seu ouvido. “Vai levar uma baita bronca”, disse a gorda de cabelos enrolados animada. “Ele é burro, fica de papo enquanto os outros trabalham”, disse um dos homens enquanto em vão, tentava conter um menino que detonava as flores do vaso de uma das mesas.

            Josué olhou para todos e disse em voz alta: “Queridos amigo e ex-colegas. Peço desculpas, mas vou ter que sair, mas fiquem à vontade, a casa é de vocês. Marquei com algumas pessoas, com ‘os sem curso superior’ e vou ter que ter com eles”, disse sem perder o sorriso. “Acho que ele vai ter é que lavar pratos agora”, rechaçou a mulher com os pneus saltando para fora da calça. Todos riram e rindo, Josué se retirou.

            Um homem do grupo, com cara de nojo, chamou o gerente com o costumeiro e deselegante gesto de estalar os dedos. O homem elegantemente vestido aproximou-se da mesa, sorriu e perguntou em que podia ajudar. “Nada demais, amigo. Eu só queria lhe parabenizar pela bronca que você deu no Josué. A gente sempre esculachava ele na faculdade. Acho até que ele desistiu por isso. Ele não mudou nada, continua servindo mesas e não presta atenção direito nas coisas. É o mesmo coitado de sempre. Então; o que falou para ele?”, questionou o homem com cara de nojo e barriga saliente. “Ah!”, fez o gerente em tom displicente. Ajeitou a gravata, deu uma puxadinha no paletó e disse: “Nada demais, caro amigo. Eu só falei ao Josué que o carro dele estava pronto e que sua mulher lhe esperava. Acho que ele deve ter falado a vocês que hoje ele tem uma festa muito importante em seu outro restaurante que fica ao lado da praia, na região sul da cidade. É um encontro com empresários do setor de alimentos, gente que conhece muito bem o ramo de restaurantes. Eles querem fazer parceria com ele. O Josué é muito requisitado, ele é tido como um prodígio no meio empresarial. Em pouco tempo, depois que ele largou a faculdade, ele conquistou tudo isso. São três restaurantes com hotéis, uma pousada na serra e mais algumas coisinhas que não vem ao caso agora. Mas ele ainda tem mais para conquistar, pode acreditar. Não é porque ele é meu filho, mas sinto muito orgulho desse menino que muito ainda vai fazer pelas pessoas e pela cidade onde vive”, falou o homem que ajeitou novamente a gravata com classe, enquanto observava o silêncio da mesa e o ar pasmado de todos os presentes. Até as crianças pararam de se movimentar por instantes.

            Pela parede de vidro de onde se podia ver o brilho das luzes da cidade refletido na lagoa, os publicitários puderam observar um dos manobradores estacionar um carro que, se vendido, a metade do dinheiro dava para comprar todos os veículos dos que estavam àquela mesa e ainda sobrava muita grana. As portas do automóvel foram deixadas abertas e os comensais puderam ver Josué se aproximar de mãos dadas com uma moça loira, alta e magra que também abandonara a faculdade de publicidade e propaganda antes da metade do curso. A moça com um sorriso de dentes de pérolas, entrou no automóvel. Seu vestido encheu os olhos e aguçou a ira das publicitárias que nem com todo o esforço do mundo conseguiriam entram nela.  O manobrador fechou a porta e Josué, agora vestindo um terno italiano de corte exclusivo, fez menção de entrar e assumir a direção, mas voltou-se, meneou a cabeça em cumprimento ao grupo de sua ex-turma de publicidade e propaganda. Deu um sorriso de satisfação, entrou no carro e saiu lentamente. No restaurante, os publicitários não sabiam onde meter a cara. Mas a fome, nenhum deles perdeu. Quando o gerente, pai de Josué anunciou que o jantar seria uma cortesia da casa, uma das mulheres, a que tinha bolas de banha para fora da calça, foi a que mais se animou. “Agora vou até afrouxar a minha cinta. Já que é de graça, quero comer de tudo”.

 

Jossan Karsten

 

Vazio

 

Crise no bolso,

fracasso na alma,

falta de grana, escassez de desejo,

respostas curtas,

palavras grossas,

vulgaridade,

falta de amor.

 

Panela vazia,

olho roxo,

medo da rua, desgosto.

Vida bandida,

só sobrevivência,

tristeza, muita,

sem poesia, vida vaga apenas...

 

Choro na casa,

luz apagada,

estômago pedindo.

Nada, apenas angústia,

crise no bolso, fracasso.

Barriga que ronca,

cama que range,

sono que some,

o fim do mundo...

 

Noite que abraça,

escuridão que abafa,

olhos sem brilho,

apenas o sobreviver, sem alma.

Vida vazia, barriga vazia,

fracasso na cama,

bolso sem nada,

sobrevivência sem amor...

 

Jossan Karsten

 

Receio de me mover

 

Nunca explorei tantos caminhos ao mesmo tempo,

mas agora tenho feito tudo isso.

Mudanças ocorrem todo momento

e fico aqui, como agente passivo, sem saber o que fazer,

sem ter como agir.

 

Amigos foram-se, amores, nunca tive.

Fico aqui, querendo me encontrar,

mas me perdendo a cada momento,

como um louco a escrever poesias,

textos que nunca serão lidos.

Estou perdido, fora de mim,

sem uma referência, louco,

indesejado, desajeitado...

 

A marcha é pesada,

a vida é pesada,

as soluções chegam e se esvaecem,

continuo aqui, como agente passivo da existência,

alguém que não tem mais por onde se atirar,

preso em mim mesmo,

com receio de me mover...

 

Jossan Karsten

Chuva e Vida

 

Caminhei sem pressa pela noite escura. Eu só queria andar. Nada de exercícios físicos, nada de manter a forma, nada, eu só queria andar.

            Procurei os lugares mais escuros, saí do bairro, desci por umas chácaras silenciosas e caminhei. Tudo o que eu ouvia era o coaxar dos sapos nas lagoas ao lado da estrada e o latido dos cachorros não muito distante, mas que chegavam de foram fraca até meus ouvidos. Eu só queria andar, distanciar-me de tudo, inclusive de mim mesmo.

            Eu não queria me dar conta de onde estava, nem se teria forças nas pernas para voltar. Meus pensamentos não eram meus. Esqueci da escrita, esqueci do meu dia-a-dia, esqueci quem eu era. Eu estava solto, mergulhado em um mundo só meu. Eu era a alma, a essência de tudo.

            Caminhei por não sei quanto tempo e uma chuva começou a cair. Olhei para cima e só então percebi que não havia estrelas e que, ao longe, alguns relâmpagos clareavam o céu. Não estaquei. Continuei no mesmo andar e a chuva engrossou. Fui em frente, já todo molhado, mas não sentindo frio. Era estranho, mas a chuva dava-me uma sensação boa. Eu parecia pisar em nuvens. Mas sabia muito bem, que não estava sonhando.

            Completamente molhado e caminhando agora a passos largos, avistei claridade. “Onde estou?”, perguntei-me pela primeira vez desde que começara a caminhar. Eu não sabia onde estava. A claridade aumentou e a chuva também. Entrei por uma rua de asfalto e o silêncio naquele instante era total. Andei mais um pouco e, quando olho para o lado, como que acordando de um sonho, avisto o portão da minha casa. Era inacreditável que, sem me dar conta, havia voltado para o meu lugar, para o meu canto. Entrei portão adentro e minha cachorra resmungou em sua casinha, mas não veio ao meu encontro, como de costume. Ela não se sentiria confortável com a chuva.

Fui até a casinha dela, afaguei-lhe a cabeça e, na porta, tirei toda a minha roupa. Nu, caminhei pela casa e fui ao banheiro.  A água quente caía sobre meu corpo que só então percebi que estava gelado e o mundo parecia não existir para mim. Tudo era belo e tinha um cheiro de saudade. Chorei sem saber por quê. Sequei-me e senti que tinha que escrever. A chuva ficava cada vez mais forte. Eu não tinha sono, só queria um café e escrever.

Fiquei naquele estado, escrevendo e bebendo café até o dia amanhecer. A chuva não deu trégua. O sono chegou e eu desmaiei. Acordei há pouco me sentindo renovado. A água da chuva tinha me revigorado os músculos e a mente. Senti fome. Comi e a chuva continuava. Olhei para fora e minha cachorra choramingou. Ela também estava com fome e recebeu comida. Entrou na casinha e eu também me recolhi. A chuva continuava como a revigorar minha vida. Eu era outro. Sentei ao computador e comecei a contar esta história. É algo simples, mas que para mim tem sabor de alegria, transmite vida.

 

Jossan Karsten

A Igreja do Degolado

 

Valdecir e Marco Aurélio se conheciam desde criança e moravam no mesmo bairro. Estudaram juntos e, por coincidência, os dois seguiram a mesma profissão, a de marceneiro. Valdecir sempre foi gordo e tudo o que mais gostava de fazer era sacanear o amigo. Desde os tempos de escola, Marco Aurélio, por se apresentar como mais fraco fisicamente, era tido, não só por Valdecir, como por todos os meninos de sua convivência como o bote expiatório para tudo. Se quebravam uma vidraça, a culpa lhe recaía sobre s costa, mesmo na maioria das vezes, estando ele muito distante do que estava acontecendo.

            Muitos dos moradores se foram. Uns até morreram, mas Valdecir e Marco Aurélio permaneciam no mesmo bairro onde nasceram, na cidade de Guarapuava. Porém, as sacanagens da parte de Valdecir em se tratando de Marco Aurélio, só tenderam a aumentar. Os dois moravam com os pais, embora, segundo a vizinhança, já “estivessem passando da hora de se casar”. Sempre que havia uma confraternização na fábrica de móveis onde os dois exerciam a função de marceneiro, Marco Aurélio já se preparava, pois podia esperar coisas não tão boas, da parte do amigo de infância. Porém, não se enraivecia. Em uma das ocasiões, quando os funcionários combinaram passar uma tarde em um pesque e pague da cidade, Marco Aurélio resolveu dar um mergulho em um dos açudes. Pronto. Foi o que bastou para ter suas roupas escondidas e ter de voltar para casa só de cueca, para total espanto de sua mãe que esbravejou: “Menino, está na hora de você dar um basta nisso. Esse Valdecir só judia de você e parece que você gosta”, falou e saiu para a cozinha, exigindo Marco Aurélio tomasse banho e se vestisse.

            Obediente, o rapaz decide pegar uma toalha em seu quarto, mas se detém ao ouvir uma notícia no Jornal Estadual da RPC TV. Ele volta-se para a televisão que há muito estava ligada e para diante do da matéria que estava passando.

            Em uma série de matérias sobre os pontos turísticos e curiosos da cidade de Guarapuava, naquela tarde uma repórter falava sobre a “Igreja do Degolado”. De acordo com a reportagem feita em frente à igreja, embasada nas informações de uma historiadora da cidade, a Igreja do Degolado surgiu devido a morte de um soldado há muito tempo atrás. Com segurança, a historiadora explicava que: “Lá pelos idos de 1894 o Paraná foi invadido pelos revolucionários federalistas, chamados Maragatos, que vinham do Rio Grande do Sul lutar contra os legalistas do governo Floriano Peixoto. Estes homens eram chamados de Pica-paus. Juca Tigre era um Capitão da força federalista que ficou famoso nas lutas na Lapa e em Guarapuava. Pretendia-se separar os estados do sul do resto do Brasil. Guarapuava chegou a possuir duas bandas de música, uma Pica-pau e outra Maragatos, que eram inimigos, não se cumprimentavam e não andavam pela mesma rua”. A historiadora respira fundo e prossegue: “Diz a lenda, que fazendeiros da região escondiam suas filhas com medo das tropas maragatos. Dois soldados desertores das tropas de Juca Tigre chegaram a uma chácara em Guarapuava, para pedir água e comida. As moças da casa fizeram um escândalo, gritando histericamente. O Dono da casa ao chegar, avistou um dos soldados urinando na mata, e como ouviu gritos da moças, arrancou uma espada da bainha e decepou sua cabeça”. A repórter faz uma intervenção e questiona: “E o que houve depois”. A historiadora toma fôlego, como a valorizar o que diria depois e prossegue: “Pois bem. O Capitão Rocha Loures, mais sensato, liberou o outro, que desapareceu em disparada. No local onde o degolado foi enterrado, segundo as crenças, começou a acontecer milagres. Algum tempo depois, foi erguida esta igreja que permanece até hoje, como vocês podem ver”, fala a historiadora enquanto igrejinha é mostrada em primeiro plano pela câmera.

A matéria prossegue e desta vez é a jornalista quem explica que há um fato curioso no local, pois todas as imagens de santos que são postas na igrejinha, perdem suas cabeças sem que ninguém saiba quem as retirou.

A câmera mostra o interior da igreja com muitas velas acesas e as imagens sem cabeça. Marco Aurélio entra em pânico. Ele lembra, que passa pela Igreja do Degolado todos os dias para ir trabalhar. “Meu Deus, como vou trabalhar agora. Ainda bem que vou sempre junto com o Valdecir. Essa ideia de gente degolada, não me agrada nem um pouco”, pensa e permanece estático, sendo despertado por sua mãe que chega na sala e resmunga: “Ainda não foi para o banho, rapaz? Depois fica resfriado aí e ninguém sabe por quê”, diz e senta-se no sofá. Marco Aurélio treme e vai para seu quarto. Pega a toalha e ruma para o banheiro.

Marco Aurélio passou o final de semana inteiro muito pensativo. Não viu Valdecir e não tirava da cabeça a reportagem que assistira, nem o fato de ter que passar pela Igreja do Degolado na segunda-feira. “Se eu contar para outras pessoas, vão rir muito da minha cara. Ma a verdade é que tenho muito medo dessas coisas. Eu queria ter a coragem do Valdecir, ele não tem medo de nada. Ainda bem que vamos sempre juntos para o trabalho. Não vou falar nada para ele. Será que ele viu a reportagem?”, disse Marco Aurélio, para espanto de sua mãe que não hesitou em ralhar com o rapaz: “Está ficando maluco Marco. Anda por aí falando sozinho! Ah! O traste do Valdecir devolveu suas roupas. Já lavei. Isso na pode mais acontecer. Parece coisa de criança”, disse a mãe e se retirou para a cozinha, como se estivesse saindo de cena, dando uma deixa para que Marco Aurélio remoesse seus medos.

Chegou a segunda-feira. Como fazia todos os dias, Marco Aurélio aguardou o amigo e os dois caminharam lentamente para o trabalho. Valdecir respirava com dificuldade devido à obesidade. Marco Aurélio seguia em mesma marcha, mas nada falava como costumava fazer todos os dias. Com sofreguidão, Valdecir questionou: “Eu não acredito que você ainda está chateado comigo por causa das roupas. Cara, aquilo foi só uma brincadeira. A gente tem que se divertir para que a vida tenha graça”, disse Valdecir e parou instantaneamente. Marco Aurélio começou a tremer, parou, mas tentou desconversar. “Não foi nada. Acho que não amanheci muito bem”, falou e voltou a caminhar, obrigando o amigo a segui-lo.

Valdecir andou mais um pouco e fez menção de parar. Desta vez, não pelo cansaço, mas porque tinha certeza de que Marco Aurélio estava lhe escondendo algo. “Você não me engana cara. O que está acontecendo? Se for por causa das roupas, esqueça. Aquela foi mais uma brincadeira. A gente precisa de brincadeira pra viver, já te falei. Desculpa-me, mas que foi engraçado, isso foi”, disse Valdecir, sentindo que Marco Aurélio desmaiaria, pois neste momento, os dois entravam pelo beco que dava acesso à Igreja do Degolado. “Homem, o que foi que aconteceu? Diga de uma vez?”, insistiu Valdecir. Com as palavras entrecortadas, Marco Aurélio então contou tudo sobre a reportagem que assistira no sábado á tarde. “Deixa de ser idiota, cara. Isso é coisa de quem não tem em que pensar. Já te disse mil vezes que assombração não existe”, falou e sorriu. Valdecir emendou:  “Vamos andando, que já estamos atrasados e o chefe está ruim da cara”, disse e riu de quase perder o fôlego. “Fantasma agora! Essa é boa”, comentou em tom sarcástico e os dois prosseguiram. Ao passar pela frente da igreja, Marco Aurélio tremeu. Deu uma olhadela para dentro e seu corpo ficou inteiro arrepiado. Em tom de piada e engrossando a voz, Valdecir pôs a cara para dentro da porta da igreja que estava sempre aberta e brincou: “Soldado fantasma, apareça. Tem gente que se borra de medo, mas eu não, venha até mim e vamos lutar de igual pra igual. Vou tirar tua farda pela cabeça”, brincou e Marco Aurélio começou a chorar de medo. Os dois seguiram. Com uma olhadela, Marco Aurélio ainda pode observar uma das imagens que se espatifava no chão de pedra da igreja. Cena esta que passou despercebida por Valdecir que tremia a barriga de tanto rir.

Antes do meio dia, na fábrica de móveis, todos os funcionários já sabiam do episódio. A maioria ria de Marco Aurélio e este se sentia muito envergonhado pelo fato de não lidar com seus medos.

A semana passou como um raio. todas as tardes, Marco Aurélio aguardava Valdecir para voltar para casa. O amigo fazia de propósito e, cada vez que passava pela Igreja do Degolado, fazia uma piada. Valdecir não estava mais suportando aquela situação, mas nada podia fazer. Se resolvesse fazer outro caminho, precisaria andar mais de cinco quilômetros pelo acostamento da rodovia até chegar á casa, sendo que, passando pela igreja, não andava nem um quilômetro e maio e pala cidade.

A notícia que deixou todos da fábrica triste chegou ao meio dia de quinta-feira. O gerente anunciou que precisava da colaboração de todos na sexta-feira para que conseguissem cumprir um contrato. “Pessoal, eu detesto faz conseguissem cumprir um contrato. “Pessoal, eu detesto fazer com que trabalhem fora do horário, mas na sexta-feira, não podemos deixar de fazê-lo. Temos muito trabalho atrasado e se pegarmos juntos, conseguiremos dar conta”, falou e já preparou os ouvidos para ouvir reclamações.  Alguns resmungaram, mas todos concordaram. Valdecir riu entre dentes. Agora ele poderia pregar a peça da semana em no amigo medroso.

A sexta-feira foi corrida. Lá pelas seis da tarde, todos pararam para o lanche e, menos de meia hora depois, recomeçaram os serviços que se estendeu até dez e meia. Terminada a tarefa do dia e da semana, a movimentação de funcionários saindo, era grande. marco Aurélio não queria perder Valdecir de vista, mas foi em vão. Ao olhar para os lados, se viu sozinho. Chorou quando se viu do lado de fora do portão da fábrica. “Eu sou um verdadeiro idiota mesmo. Todo mundo zomba de mim, eu sou um saco de pancadas, mas que posso fazer? Não sei agir diferente”, disse para si mesmo e rumou pala rodovia escura e perigosa àquelas horas, evitando passar pela frente da Igreja do Degolado.

 

Continuação 

***

 

Valdecir já estava com as pernas doendo de ficar agachado atrás da igreja à espera de Marco Aurélio. Vestido com um lençol branco, ele tinha planejado a semana toda e procurado uma maneira de assustar o companheiro. Algumas velas de fiéis ainda ardiam no interior da igreja, reverberando nos santos sem cabeça dispostos em um altar rústico. Pelo buraco do lençol, Valdecir ria. “Eu adoro assustar o marco Aurélio. Ele nunca toma jeito, mesmo com tudo o que a gente faz para ele”, pensou enquanto ouviu passos que se aproximava.

Valdecir levantou-se com dificuldade e ficou pronto para dar saltar sobre o passante. Os passos se tornaram mais audíveis e, quando o Valdecir se certificou de que Marco Aurélio já estava muito próximo, saltou em seu caminho. Não era Marco Aurélio, mas sim, um homem de aparência jovem, trajando uma espécie de bombacha, com cantil pendurado no pescoço e uma adaga na cintura. Sobre o ombro esquerdo, o rapaz tinha um fuzil e do mesmo lado, um alforje completava a vestimenta de soldado.

Valdecir ficou paralisado. O soldado não diminuiu o passo e continuou vindo ao seu encontro. Antes que rapaz desmaiasse, viu que o soldado, como uma miragem, passara por sobre ele e seguia seu caminho. Quando estava próximo ao riacho, o soldado olhou para trás e sorriu. Neste momento, Valdecir viu um enorme corte em seu pescoço que por pouco não separava a cabeço do corpo. Valdecir desmaiou.

Valdecir acordou no sábado, em um quarto de hospital. Marco Aurélio estava ao seu lado muito preocupado com o amigo. “Disseram que você sofreu uma queda brusca de pressão e desmaiou. Alguém ligou para o pronto socorro e foram te buscar. Puxa, você podia ter me esperado e podíamos ter evitado isso”, falou Marco Aurélio com uma segurança que Jamais alguém poderia imaginar que ele tivesse.

Muito amedrontado, Valdecir perguntou ao amigo como ele tinha feito para chegar a casa na noite anterior. Sem rodeios, o outro disse: “Tem coisas que não têm explicação. Eu estava morrendo de medo de ir sozinho, pois você saiu antes e decidi ir pela rodovia. Quando saí no trevo, encontrei um rapaz do quartel. Ele disse que ia pelo mesmo lado e fomos juntos. Caminhamos bastante, mas valeu a pena. Esse rapaz, que estava sem farda, contou que também tinha medo de muitas coisas, mas que havia superado isso. Ele falou que o segredo da coragem, não está em enfrentar as coisas, mas sim, de aprender a conviver com tudo o que está à nossa volta. Eu não entendi nada do que ele falou, mas a verdade é que eu perdi o medo. Agora, passo pelo caminho da Igreja do Degolado todos os dias e não sinto mais aquele arrepio. Hoje eu já fiz um teste antes de vir para cá. resolvi até a acender uma vela para o homem que foi assassinado”, narrou, foi até a janela e puxou a cortina.

Valdecir sentiu um arrependimento profundo por tudo o que tinha feito ao amigo ao longo dos anos e jurou nunca mais repetir as malvadezas. Ao olhar pala janela aberta, a imagem do soldado lhe surgiu, mas não o assustou. O rapaz lhe sorria um sorriso sincero e, com a mão direita, fez-lhe uma continência como a assentir que em anos, pela primeira vez ele tinha aprendido a lição.

 

Jossan Karsten

 

 

 

 

 

Retorno

 

Retorno ao ponto zero,

estou de volta para começar tudo de novo,

recarreguei as forças e estou pronto,

motivado, com vontade de recomeçar...

 

A vida sempre me reservou coisas,

não tenho como mudar essa situação,

mas posso fazer melhor,

ser melhor,

não para os outros,

pois os outros não me interessam,

preciso e quero ser melhor para mim mesmo,

estou no ponto zero,

marca de partida para o novo,

a vida me reserva coisas e estou pronto

para encarar tudo,

mesmo que seja sozinho,

eu vou fazer...

 

Jossan Karsten

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